A Europa chegou tarde ao combate ao ébola e a comunidade internacional foi negligente, acusam 44 especialistas mundiais em saúde pública, entre os quais o ex-diretor-geral da Saúde José Pereira Miguel, numa carta aberta publicada na revista The Lancet.

«Não é só uma questão de verbas e dinheiro», disse à agência Lusa José Pereira Miguel, antigo presidente do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) e um dos autores do documento, que foi enviado pelos subscritores às autoridades dos respetivos governos.

No documento, publicado na edição de sábado da revista The Lancet, lê-se que os profissionais de saúde e as populações que estão no terreno – na África ocidental – «necessitam desesperadamente de equipamentos de proteção individual e desinfetantes, como sabonetes e cloro».

Os autores defendem uma maior participação dos Estados europeus no envio de ajuda e de profissionais, bem como no apoio à sua formação.

«Após meses de inércia e negligência por parte da comunidade internacional, a epidemia de ébola está totalmente fora de controlo», começam por escrever os autores do documento.

Segundo José Pereira Miguel, a Europa começou tarde, mas a luta contra o ébola ainda pode ser ganha, embora só se a Europa ajudar.

A carta vai nesse sentido: «Pressionar os Estados europeus para que se faça mais, para que se mobilizem todos os recursos que a Europa tem».

Segundo José Pereira Miguel, o documento alcançou alguns dos objetivos, pois foi seguido do anúncio de medidas da Comissão Europeia de apoio aos países afetados.

Sobre a epidemia, o especialista em saúde pública considerou a situação «muito grave», lembrando que o vírus já fez cerca de 3.000 mortos e que os hospitais montados no terreno estão sobrelotados.