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Este artigo é parte da reportagem «Os Nossos lá fora», clique aqui para voltar ao inicio.
 
Partir. Deixar tudo para trás. Família, amor, conforto. Esta é a primeira dura realidade que um repórter de guerra enfrenta quando decide ir. Deixar a secretária é para muitos dos jornalistas de hoje uma tarefa cada vez menos frequente. Deixar a secretária e partir para a guerra é ainda mais raro. Mas nem sempre foi assim. Alguns dos que fomos vendo, lendo e ouvindo ao longo dos anos tiveram o privilégio de andar por lá.
 
Ao tvi24.pt contam por que foram e como de lá voltaram. 
 
Das guerras, Luís Castro traz o que pode. Memórias que vão enchendo o gabinete que ocupa na sede da RTP. De frente para a porta está o lenço de trazer ao pescoço que usou quando esteve na guerra do Iraque. Em cima da secretária, quase escondida, está uma matrícula de um veículo do Koweit. Coladas na parede estão as três divisas militares que lhe foram oferecidas no Iraque. São todos pequenos «troféus». Provas de que esteve onde se fez história. Provas de que foi, e será, repórter de guerra.

«Estive preso quatro vezes, tive de fugir de um país, da Guiné, fui proibido de entrar noutro, tive dois acidentes graves, e nestas situações questionamo-nos se vale a pena o que estamos a passar e o que estamos a fazer a família passar, mas depois percebemos que é esta a nossa missão. Se quisermos ficar cá, não deixamos de ser profissionais, mas o facto de ir lá perceber por que alguém se faz explodir com um cinto de dinamite, trazemos uma perceção muito diferente daquela que temos aqui, atrás da nossa secretária. (…) Porque a secretária é um lugar perigoso para olhar o mundo. Quando vamos lá, estamos onde se mata, onde se morre, onde cheira a pólvora. Voltamos com uma ideia completamente diferente daquela com que partimos», confessa. 

Mas para ir, não basta querer contar a história e a História. Francisco Prates, jornalista da TVI, explica que mais do que a vontade e o dever de informar, o requisito para uma aventura deste tipo é outro: «É ser louco, a loucura faz parte, e quando se vai para lá, a adrenalina começa a subir e não sabemos onde é o limite. Normalmente, nessas zonas não há lei nem ordem. Quem nunca fez isso até pensa que somos idiotas porque vamos para sítios completamente desarmados. A única arma é o microfone, a caneta ou a câmara. É preciso ter alguma dose de loucura», conta.

Francisco Prates esteve em Timor, Zimbabué e Afeganistão. Cenários de conflito onde viveu «alguns sustos», mas para onde não se arrepende de ter ido. «É uma experiência que nunca mais vou ter na vida, e que nem toda a gente pode ter, mas porque a coisa corre bem, se corre mal é que é uma chatice. E correr bem é sair de lá com vida».

Mais do que ser aventureiro, ou louco, para o jornalista Adelino Gomes, ex- RTP, Público, Renascença, Rádio Clube Português, hoje reformado, quando se parte para cobrir um conflito, o repórter deve lembrar-se de que «não vai vender barata a vida».

«O jornalista quando parte para situações destas deve levar a consciência [dos perigos], e se não a tem, os seus chefes devem transmitir-lha. Depois deve fazer duas coisas, a primeira, é fazer um curso de preparação, para que a pessoa saiba de onde vêm os tiros, ou como se deve comportar nessas alturas, se é raptado, ou algo assim. Isso não faz evitar o tiro, mas talvez faça com que o leve mais tarde», conta entre risos. «A segunda é ir com a consciência que não vai vender barata a vida, isto é, que vai tomar todas as precauções para que não seja atingido, ou raptado».

Adelino Gomes confessa que «só» em três situações esteve perto da linha de fogo*, mas ir é sempre ir e um jornalista quando vai, não vai sozinho. Na bagagem leva quem cá fica. «Não era só a minha mulher, também os meus filhos, amigos e ainda o que me custava a mim. Lembro-me, por exemplo, quando fui para o Iraque, em 2002 ou 2003, estar numa casa que tínhamos nos arredores de Sintra, estar lá sozinho, e olhar para os cães, a natureza, tudo calmo e pensar: será que eu volto aqui? Por isso... também me custava».

Luís Castro deixa outra lição: quando se parte, e quando, já lá, se procuram as histórias, «não se pode pensar que se tem mulher e filhos», ainda que a bagagem vá sempre pesando... 
 
«Os meus filhos estavam diferentes. O feedback que obtinha com os professores era que estavam mais calados, menos participativos, porque é impossível não refletir nos meus filhos uma consequência do local onde estava. Por vezes choravam. Um colega de escola uma vez disse a um deles: "tenho muita pena que o teu pai esteja na guerra"... e ele desatou a chorar». 

Ainda assim, Luís Castro voltou a ir. 
 
«Arrisquei muito nas 24 guerras onde passei, mas lá tens duas prioridades. Uma é cumprir a missão para que fomos determinados. Não podemos ficar no hotel. Tens de ganhar proximidade para poderes filmar. Depois, é sobreviver, porque de nada vale uma boa história se não voltarmos para a contar. Mas quando vires que alguém corre para onde todos os outros fogem, é porque é jornalista, ou jornalista de guerra».

*Durante a Guerra do Golfo (1991), Sarajevo (1994) e Iraque (2003)