O “ex-espião” Silva Carvalho negou esta quinta-feira que tivesse fornecido informações sobre cidadãos russos interessados no porto de Astakos para beneficiar a empresa Ongoing, presidida por Nuno Vasconcellos. Ex-diretor do SIED disse que não ia “sujar-se” por um ordenado.

O ex-diretor do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) falava, como arguido, no julgamento em que o Ministério Público e o juiz de instrução sustentam que Nuno Vasconcellos decidiu contratar Jorge Silva Carvalho para os quadros da Ongoing, porque este obtinha informação relevante para aquele grupo empresarial, através da sua ligação às secretas, de acordo com a reportagem da Lusa.

Silva Carvalho justificou que a informação sobre os cidadãos russos interessados na privatização do porto grego de Astakos foi transmitida a Paulo Santos, um empresário radicado em África, simplesmente porque se tratava de uma “fonte”, que também lhe retribuía informações de Angola, Moçambique e outros países.

O ex-diretor do SIED, que está pronunciado por corrupção passiva para ato ilícito, entre outros crimes, garantiu que quando, em finais de 2010, transmitiu a informação sobre os russos a Paulo Santos, este último não trabalhava para a Ongoing, o que só veio a acontecer em 2011.

Apesar de a juíza presidente Rosa Brandão ter confrontado Silva Carvalho com mensagens de telemóvel enviados por este a Nuno Vasconcellos, em 2010, em que o arguido perguntava ao patrão da Ongoing se lhe dava emprego, caso saísse das secretas, e quanto lhe podia pagar de salário, o ex-diretor do SIED refutou que pudesse “sujar-se” por um ordenado.

“Nunca me vendi e não seria por um salário. Só a mera ideia é ofensiva. A insinuação que é feita pela acusação de que ia sujar-me por um salário é absolutamente insultuosa”, disse Silva Carvalho, observando que se quisesse ganhar muito dinheiro tinha ido trabalhar para países estrangeiros ou para outras empresas e não para a Ongoing.

Na audiência, Francisco Proença de Carvalho, advogado de Nuno Vasconcellos, contestou o facto de a juíza comentar que a Ongoing estava em “negociações avançadas” para investir no porto de Astakos, quando a informação sobre os russos foi obtida, tendo a magistrada retirado a palavra “avançadas” para serenar os ânimos.

Silva Carvalho justificou a sua saída do SIED com cortes financeiros que prejudicavam a operacionalidade dos serviços e com a desilusão causada por algumas decisões tomadas pelo secretário-geral do Serviço de Informações da República Portuguesa (SIRP), Júlio Pereira.

O processo envolve ainda suspeitas de acesso ilegal à faturação detalhada do telefone do jornalista Nuno Simas, que, enquanto jornalista do Público, escreveu, em 2010, sobre problemas internos no SIED.

Jorge Silva Carvalho e João Luís estão acusados por acesso ilegítimo agravado, em concurso com um crime de acesso indevido a dados pessoais e por abuso de poder.

Nuno Vasconcellos está acusado de corrupção ativa para ato ilícito.

O arguido Nuno Dias está acusado por acesso ilegítimo agravado e a sua companheira Gisela Fernandes Teixeira por acesso indevido a dados pessoais e um crime de violação do segredo profissional.