O antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, defendeu, esta quinta-feira, em Lisboa, a necessidade de uma nova agenda europeia relacionada com migração, integração e cidadania contra o terrorismo e a radicalização e apontou a importância dos líderes religiosos muçulmanos neste combate.

"Apesar de ser parte integrante da Europa, a diversidade cultural tornou-se um assunto que divide as nossas sociedades" e o crescimento dos partidos de extrema-direita e anti-imigração é um "sintoma claro do crescente mal-estar" e que mostra "como os medos e os preconceitos podem transformar-se numa bomba-relógio social em toda a Europa, se não tiver a resposta correta", disse o ex-Presidente, na abertura do Fórum Lisboa 2015, uma iniciativa do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa que vai discutir a radicalização e o terrorismo durante dois dias.

Para Jorge Sampaio, a crise "económica, financeira, social, cultural e moral" que se vive atualmente na Europa "tem de ser enfrentada a todos os níveis, em particular ao nível europeu", até porque, sublinhou, não é circunstancial, mas "uma verdadeira mudança de paradigma".

Se a radicalização é "um processo com muitas camadas", a desradicalização "requer também uma intervenção a vários níveis que leva o seu tempo para atingir os objetivos".


"Precisamos de uma nova agenda europeia para a migração, integração e cidadania", considerou, defendendo também a necessidade de uma "visão política ousada e uma estratégia de longo prazo que combine políticas públicas apropriadas - na educação, alojamento, emprego e políticas para a juventude - e ações da sociedade civil para reconstruir sociedades coesas e inclusivas, não só a nível europeu, mas também nacional e local".

Jorge Sampaio, que também já presidiu ao Fórum Lisboa, advogou que está a decorrer uma transformação religiosa no Islão, em que a religião é cada vez mais vista como a expressão de um direito humano individual e menos como um direito coletivo de uma comunidade.

Esta transformação, sustentou, "tem de ser fortemente apoiada e promovida desde o interior" e, por isso, os líderes religiosos nos países muçulmanos e nas comunidades "devem impedir que visões extremistas e o fundamentalismo transformem o Islão num instrumento de violência e terror".

Também na sessão de abertura, André Azoulay, conselheiro do rei de Marrocos, levantou a questão sobre a capacidade das organizações internacionais, nomeadamente a Organização das Nações Unidas (ONU), para responder aos desafios atuais.

Evocando os atentados do mês passado em Paris e o ataque que causou pelo menos 14 mortos na Califórnia, na quarta-feira, considerou que é inevitável avaliar "se não é tempo de as instituições internacionais que regulam a sociedade serem revistas e talvez reformadas".

Há que refletir se "o Conselho de Segurança ou diferentes instituições da ONU são capazes de tomar as decisões necessárias e de encontrar as palavras, as atitudes e as ações que possam responder a este desafio, a que o mundo hoje não consegue responder", considerou.

Azoulay, que venceu no ano passado o Prémio Norte-Sul, entregue pelo Centro Norte-Sul, defendeu que os terroristas devem saber que "no pasarán" ("não passarão", lema utilizado internacionalmente para demonstrar determinação contra o inimigo).

"Não devemos dar-lhes a satisfação de instalarem o medo nos nossos corações", disse, exemplificando que o seu país, Marrocos, reconhece na Constituição as raízes berbere, judaica, árabe, muçulmana e africana.

"Hoje é esse ponto que devemos enfatizar para que todos percebam que no mundo árabe há sociedades que reconhecem a diversidade e a multiplicidade das nossas identidades", disse, considerando que "é nesta complexidade que se vai conseguir combater esta cultura de morte".

Para a diretora-geral de Democracia do Conselho da Europa, Snežana Samardžić-Marković, "a confiança nas instituições democráticas e a construção de sociedades realmente inclusivas são um antídoto contra o medo e uma pré-condição para a segurança democrática".

A responsável recordou que o Conselho da Europa desenvolveu um plano de ação para combater o extremismo violento e o extremismo conducente ao terrorismo, que "tem dois objetivos principais: reforçar o quadro legal contra o terrorismo e extremismo violento e prevenir a radicalização violenta através de medidas concretas no setor público, em particular nas escolas, nas prisões e na internet".

O Fórum Lisboa 2015, com o tema “Como combater a radicalização e o terrorismo: mecanismos de prevenção e conhecimento partilhado no espaço mediterrânico europeu”, conta com mais de 50 oradores, num total de 250 participantes oriundos de 40 países.