O secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, autorizou oficialmente a afetação do antigo cinema Londres, em Lisboa, para outra atividade sem ser cinematográfica, foi anunciado esta quinta-feira.

O cinema Londres está encerrado há mais de um ano e os proprietários fizeram um contrato com comerciantes para a abertura de uma loja, tendo pedido a desafetação da atividade do espaço (que é obrigatória por lei) a 17 de fevereiro.

Quase quatro meses depois do pedido, a secretaria de Estado da Cultura autorizou que o antigo cinema Londres possa acolher qualquer outra atividade que não a exibição de cinema, tendo em conta que a «oferta cinematográfica à população residente está assegurada através de outras salas de cinema existentes naquela zona da cidade».

Ainda assim, a tutela ressalva que esta autorização «não impede que o recinto possa vir a ser utilizado para fins culturais».

Esta autorização também acontece depois de ter expirado o prazo de um mês, dado pela tutela, para que os proprietários do cinema Londres, os arrendatários e os movimentos de comerciantes e MaisLisboa chegassem a consenso quanto ao futuro do espaço.

É que tanto o movimento de comerciantes do bairro como o movimento MaisLisboa propuseram um modelo de gestão do antigo cinema Londres que preservava a vertente cinematográfica, coabitando-a com atividades comerciais e culturais.

«Apesar de todos os esforços desenvolvidos (...) não foi possível obter, até à data, a materialização de qualquer investimento que levasse a cabo a exploração do espaço, mantendo-o como recinto de cinema», afirma a secretaria de Estado.

E acrescenta: «Não há, até ao momento, conhecimento de qualquer proposta, investimento ou apoio concreto da Freguesia do Areeiro e/ou do Município de Lisboa nesta matéria».

Contactado pela Lusa, o representante dos proprietários disse desconhecer o teor do despacho da tutela, mas afirmou que irá contactar a autarquia de Lisboa para confirmar se «é necessária nova licença de uso para comércio e serviços», reiterando a vontade dos comerciantes chineses em abrir uma loja no antigo cinema Londres.

Por seu turno, Carlos Moura-Carvalho, do movimento de comerciantes, disse à agência Lusa que tinha sido proposta a criação de uma cooperativa gerida por privados para tomar conta do espaço, mantendo a vertente cinematográfica.

«Como foram feitas obras ilegais no espaço - que não podem ser imputadas aos atuais arrendatários - achámos que as novas obras de transformação para uso cultural deviam ser comparticipadas por entidades públicas e privadas. E foi aqui que não houve acordo. A câmara municipal e a junta de freguesia, na hora da verdade, não avançaram», disse Carlos Moura-Carvalho.

O movimento de comerciantes não desiste do projeto de uma cooperativa para o antigo cinema, mas aguarda uma tomada de posição por parte da câmara municipal ou da junta de freguesia.

Citando dados estatísticos do Instituto do Cinema e Audiovisual, a tutela sustenta que o cinema Londres registou uma «diminuição acentuada e progressiva» de espetadores na última década. Em 2004, pelo cinema passaram 97.877 espetadores e em 2012 registaram-se 29.932.

Em 2013, ano de encerramento depois da exibidora Socorama ter aberto falência, registaram-se apenas 4.579 espetadores.

Tendo sido uma das últimas salas de exibição, em Lisboa, fora de centros comerciais, o cinema Londres foi inaugurado a 30 de janeiro de 1972, com uma área de mais de mil metros quadrados, que incluiu uma zona de restauração.