Joana Marques Vidal admitiu que «há uma rede que utiliza o aparelho de Estado» para a corrupção. Numa entrevista à Rádio Renascença e ao jornal Público, publicada nos sites dos dois órgãos de comunicação social, quando questionada sobre a perceção que os portugueses têm sobre a corrução como «fenómeno generalizado», responde que o aparelho de Estado é atingido.

«Só tenho que tirar conclusões e fazer análises que permitam lutar melhor contra os fenómenos que são da minha responsabilidade. Há uma rede que utiliza o aparelho de Estado e da Administração Pública para concretizar atos ilícitos, muitos na área da corrupção», diz Joana Marques Vidal, acrescentando que «há áreas em que há maior risco», como a «área da contratação pública», entre outras.


E explica que «o Ministério Público, mais concretamente Portugal, nos diversos relatórios internacionais tem sido apontado estando em falta quanto à não definição de uma estratégia nacional de luta contra a corrupção. O Ministério Público, no que diz respeito à sua parte, está a fazê-lo», com «um grupo de trabalho que está a ser coordenado pelo diretor do DCIAP (Departamento Central de Investigação e ação Penal), em cooperação com todos os DIAP (Departamentos de Investigação e Ação Penal), designadamente os distritais, que vai ter resultados, não só na área da prevenção, mas também na área da formação e numa melhor organização».

Para a Procuradora-Geral da República, o facto de, nos últimos anos, se terem verificado mais casos de criminalidade mais complexa, significa que o MP «está a fazer o seu caminho», mas, apesar da especialização dos magistrados, «precisa de se articular melhor», tendo sublinhado a atual falta de meios.«Temos problemas de funcionários muito graves. Faltam 563 funcionários nos serviços do MP, temos falta de magistrados e neste momento não temos perspetiva para a existência de um curso para a formação de magistrados, que era importante, e devia iniciar-se este ano. Podíamos e devíamos melhorar os meios informáticos, programas relacionados com tratamento da informação, que fazem as transcrições imediatas das gravações poupariam trabalho e melhorariam a nossa capacidade de fazer investigação criminal.»
Quando questionada sobre os alertas de várias entidades sobre a rutura iminente do sistema de Justiça, devido à falta de funcionários, Joana Marques Vidal afirma que as consequências são o atraso do tempo de duração média dos inquéritos e de processos nos tribunais de família.

«Há acusações com meses, à espera de serem notificadas às partes. A possibilidade de haver prescrições pode aumentar. Tem-se lutado contra as prescrições e não tem havido. Mas há esse risco. Há problemas graves e sem funcionários não vamos conseguir responder às nossas responsabilidades», afirmou, acrescentado que ainda é cedo para fazer um balanço sobre os primeiros seis meses após o arranque da nova organização dos tribunais.

Joana Marques Vidal acrescenta que «aquilo que é uma gestão comum pode potenciar uma melhor resolução dos problemas» e que a situação «foi prejudicada pelo problema do Citius», que «está a funcionar, mas ainda é necessário um apoio informático localmente muito ativo para poder ultrapassar pequenas perturbações locais, como por exemplo no acesso a processos antigos».

Na mesma entrevista a Procuradora-Geral da República mostrou-se indignada com violações do segredo de justiça relativamente ao caso Sócrates.