A atriz Jessica Athayde respondeu, esta segunda-feira, às críticas sobre o seu aspeto físico no desfile do Moda Lisboa e apelou à união das mulheres contra «a forma como são permanentemente olhadas, julgadas e atacadas». Jessica escreveu que «cada mulher é um mundo muito para além do corpo que a recebe».

É certo que o conceito de beleza ainda hoje difere de país para país e de cultura para cultura. Mas no caso das sociedades ocidentais, estarão os padrões de beleza a tornarem-se cada vez mais «irreais»?

Elisabete Rodrigues, socióloga e autora do blogue «Super-Mulher», não tem dúvidas de que o ideal de beleza instaurado nas sociedades contemporâneas é «impossível de alcançar» e, em declarações ao tvi24, explicou porquê.

«Nas sociedades contemporâneas ser-se bonito implica ser-se magro e jovem. Mas não só. Sorriso branco, dentes alinhados, cabelo brilhante, ausência de pêlos, borbulhas, estrias, celulite…são alguns dos inúmeros requisitos», refere.

Apesar de não haver dados quanto ao número de cirurgias estéticas realizadas anualmente em Portugal, sabe-se que há muitas mulheres que recorrem a estes processos para obterem a imagem perfeita. Mas se o ideal de beleza é «impossível de alcançar», por que o fazem?

«As pessoas são confrontadas diariamente com imagens, muitas vezes manipuladas, de mulheres que pretendem captar o olhar dos homens e servir de modelo para as próprias mulheres. Nalguns casos as imagens chegam a utilizar modelos de uma magreza quase extrema», afirma.

Uma pressão social que, segundo a socióloga, é causada não só «pelas várias indústrias interessadas em difundir este tipo de ideais», mas também pelos próprios homens e mulheres. Confuso? Elisabete Rodrigues esclarece porque é que o cidadão comum tem culpa, independentemente do sexo.

«Se os ideais existem e se eles têm tanta influência sobre os comportamentos das pessoas, só pode ser porque existe um défice de reflexividade e de questionamento sobre a realidade», explica.

Igualdade de género: mito ou realidade?

No texto partilhado, Jessica referiu a admiração pela campanha da atriz Emma Watson que pretende promover a igualdade de género e sugeriu um movimento idêntico, em Portugal. 

A  campanha de Watson, chamada #HeForShe, tem o objetivo de conseguir que os homens apoiem as mulheres em questões de igualdade de género.

Watson é a Embaixadora da Boa Vontade das Nações Unidas para os Direitos das Mulheres e na altura do lançamento da campanha abordou a questão do «Feminismo», defendendo que o movimento não é sinónimo de ódio aos homens. 
 
«Para que conste, a definição de feminismo é a seguinte: a crença que os homens e as mulheres devem ter direitos e oportunidades iguais. É a teoria da igualdade social, económica e política entre os sexos», disse.

Os especialistas defendem que em pleno século XXI, e mesmo nas sociedades mais desenvolvidas, a igualdade de género ainda não é uma realidade adquirida.

Antes de Watson, várias figuras públicas internacionais já se tinham assumido como feministas, a favor da igualdade entre os dois sexos. Amy Poehler, Dustin Hoffman, Pratick Stewart, Ellen Page, são apenas alguns dos exemplos. 

No entanto, nos últimos meses, têm-se assistido a um fenómeno completamente oposto: uma campanha na Internet que tem unido mulheres de todo o mundo contra o feminismo, «Women Against Feminism».

São fotografias de mulheres que abraçaram a causa anti-feminista, explicando as razões que as movem nesse sentido. 








Recuando ao caso de Jessica Athayde, a atriz revelou que a maioria dos comentários negativos foi feita por mulheres: «Mulheres que são filhas, mulheres que são mães, mulheres que ainda não perceberam que cada vez que cedem à tentação de atacar outra mulher com base nas suas características físicas, estão a enfraquecer a condição feminina, em vez de lhe dar força».

Por tudo isto, a questão impõe-se: as mulheres são mais machistas do que os próprios homens?

«Se não existissem mulheres tão ou mais machistas que muitos homens, a igualdade entre os géneros estaria seguramente mais perto de ser uma realidade adquirida. Infelizmente não é assim. Se mulheres e homens não têm, ainda hoje, os mesmo direitos isso deve-se também às próprias mulheres», explica Elisabete Rodrigues.

Redes sociais: sob a capa do anonimato o bullying tornou-se mais fácil?

As críticas à forma física de Jessica foram partilhadas nas redes sociais. A atriz foi vítima de cyberbullying

O termo terá sido usado pela primeira vez por Bill Belsey, professor canadiano, e foi definido como «o uso de tecnologias de comunicação e informação como forma de levar a cabo comportamentos deliberados, hostis, contra um indivíduo ou grupo, com a intenção de agredir».




Num altura em que as redes sociais estão praticamente integradas no quotidiano das pessoas, as formas de bullying também parecem migrar para estas plataformas, atingindo não só os jovens, como os adultos.  Na Internet, o bullying tornou-se mais fácil?

«Este tipo de reacções mais agressivas, em cadeia, são o reflexo daquilo que as redes sociais conferem às pessoas: uma espécie de anonimato. As pessoas tendem a sentir-se mais à-vontade para expressar as suas opiniões do que numa interacção face-a-face», explica Elisabete Rodrigues. 


Direito a emitir uma opinião, liberdade de expressão: tudo isto pode ser ilimitado, na Internet?

«Parece-me que muitas pessoas vivem as redes sociais como uma realidade paralela, no âmbito da qual as regras são outras e ninguém pode ser penalizado pelo que diz. Quanto a mim, liberdade implica sempre responsabilidade», salienta a socióloga.