Seis crianças tiveram este ano um funeral graças à Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa, que nos primeiros nove meses deste ano acompanhou o funeral de 86 pessoas de quem ninguém reclamou o corpo.

De acordo com esta instituição católica, que acompanha o funeral de quem morre sozinho, nas ruas ou nos hospitais, sem família ou alguém que reclame o corpo, de janeiro a 30 de setembro realizaram-se 86 funerais, mais sete do que em todo o ano de 2013.

Entre os 86 funerais que a Irmandade acompanhou, estavam os de seis crianças, cinco rapazes e uma rapariga.

«As crianças são crianças de tenra idade, normalmente abandonadas pelos pais ou que são encontradas em sacos de plástico, em caixotes do lixo. Não são nados mortos, mas idades muito tenras ainda», adiantou à Lusa o irmão provedor Pedro Vasconcelos.

O responsável explicou que as crianças são lhes entregues pelo Instituto de Medicina Legal ou pelos hospitais, não sabendo qualquer história em relação a elas.

«Os casos não nos veem com muita informação e aquilo que sabemos de uma maneira geral é que ou são crianças que sendo abandonadas pelos pais, tiveram tratamento numa unidade hospitalar e depois disso faleceram ou então já estavam falecidas quando foram abandonadas pelos pais», explicou o irmão provedor.

Entre as 86 pessoas a quem a Irmandade acompanhou o funeral nos primeiros nove meses de 2014, 47 eram homens, 29 eram mulheres, seis eram crianças e houve ainda quatro desconhecidos, ou seja, pessoas de quem não se descobriu qualquer identidade.

Olhando para os doze meses entre 30 de setembro de 2013 e 30 de setembro de 2014, o número de funerais sobe para os 105, entre 55 homens, 34 mulheres, sete crianças, dois nados mortos e sete desconhecidos.

Pedro Vasconcelos adiantou que o procedimento normal passa por a Irmandade receber uma comunicação do Instituto de Medicina Legal em como tem um corpo para libertar, sendo que o funeral é pago pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

À Irmandade cabe acompanhar o funeral, através de um sacerdote ou um diácono, fazendo orações, levando velas e flores, havendo, no entanto, situações em que a gestão dos acompanhamentos dos funerais se complica.

«Houve um dia que foram 12 funerais», apontou Pedro Vasconcelos, acrescentando que normalmente os funerais se repartem por vários grupos, mas que também acontece um grupo ter de acompanhar vários funerais, tendo, para isso, de concentrar mais do que um funeral no mesmo cemitério, à mesma hora.

Apesar de a Irmandade contar com 150 irmãos, são só entre 12 a 15 as pessoas que acompanham os funerais, algumas delas voluntárias.

O responsável da Irmandade disse ainda que o «grande objetivo» é que o trabalho feito em Lisboa seja copiado no resto do país, através das várias Misericórdias espalhadas de norte a sul.

A Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa faz acompanhamento de funerais desde 2004, tendo realizado já 1.257, 691 de homens, 301 de mulheres, 36 de crianças, 56 de nados mortos e 87 de desconhecidos.

Sexta-feira, a Irmandade realiza uma missa por todas as pessoas que acompanhou, dado que no dia 17 de assinala o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza e dos Sem-abrigo.