Os pais dos dois meninos que foram alegadamente maltratados por uma ama, numa creche ilegal, em Lisboa, disseram esta quarta-feira em tribunal que tinham «total confiança» na mulher, e que ficaram surpreendidos quando viram as imagens dos supostos maus tratos.

A arguida foi filmada pelos vizinhos a agredir as vítimas, em 2011, ano em que tinha a seu cargo 17 crianças no próprio apartamento, na avenida Miguel Bombarda, em Lisboa. A mulher, atualmente com 63 anos e reformada, está acusada de dois crimes de maus tratos, tendo hoje se remetido ao silêncio na primeira sessão do julgamento.

Os pais das duas crianças, à data dos factos com dois anos e dois anos e meio, afirmaram, perante a juíza do 6.º Juízo Criminal de Lisboa, que, até àquele momento, «não tinham nada a apontar» à arguida, que os filhos «gostavam muito» dela, sublinhando que se sentiram «surpresos e revoltados» ao verem as imagens.

«Vi o meu filho a levar sete estaladas no rosto durante a hora da refeição. Nunca pensei que isto pudesse acontecer. Era uma pessoa [ama] meiguinha, e ainda hoje estou a tentar perceber como é que isto aconteceu. Depois dos factos, cheguei a falar com a 'Vává' [nome pelo qual a ama era chamada] pessoalmente, mas nunca me conseguiu explicar as razões de ter feito isto», disse uma das mães, educadora de infância.

O marido corroborou a opinião da esposa, mas, apesar de estar agradecido à arguida por toda a ajuda que deu ao casal com o filho, recusa-se a perdoá-la.

«O perdão é divino e as desculpas são terrenas. E eu não desculpo», frisou o homem.

O pai da outra vítima assumiu que o seu filho não é uma das crianças que aparece nas imagens a ser agredido pela arguida, mas relatou que, cerca de um mês antes dos alegados factos, o menino disse que a ama lhe tinha batido. A testemunha referiu que confrontou a ama com a queixa, ao qual esta lhe terá dito que a criança «estava a inventar e a fazer filmes».

Na sessão de hoje, foi ainda inquirida a inspetora da Segurança Social que acompanhou o caso, a qual disse que a arguida era reincidente e que tinha transferido, uns meses antes, as crianças de um outro apartamento em Lisboa para a avenida Miguel Bombarda, depois de a inspetora a ter notificado de que não podia continuar com a creche ilegal.

A responsável salientou que o apartamento na avenida Miguel Bombarda «era pior» do que o anterior e que as crianças «estavam em perigo», pois a casa não tinha as condições necessárias para que as crianças pudessem crescer». Por isso, a responsável decretou o encerramento urgente da creche ilegal, no dia da operação policial, a 2 de junho de 2011.

A inspetora da Segurança Social revelou que a arguida trabalhava das 07:00 da manhã até às 02:00 da madrugada, incluindo fins de semana, e que cobrava valores entre os 40 e os 250 euros. Para a técnica, o que mais a marcou foi a «apatia» das crianças, dando como exemplo o facto de estarem cinco crianças a dormir numa sala calmamente, no momento em que vários adultos conversavam e faziam barulho.

Também hoje inquirida, a empregada da ama referiu que «nunca viu» a arguida a bater nas crianças, mas que «tratava as crianças como adultos». Acrescentou que a «patroa» dava de comer a todas as crianças «do mesmo prato e com a mesma colher», depois de colocadas em fila, sentadas numa cadeira.

O advogado da arguida, Túlio Machado, explicou, à saída do tribunal, que as imagens não fazem parte do processo e que só farão se a juíza ou o procurador do Ministério Público o requererem.

Túlio Machado escusou-se ainda a confirmar quantas crianças é que foram sujeitas a exames toxicológicos, acrescentando que, quanto a esse assunto, agora também nada há a fazer.

A próxima sessão ficou agendada para as 14:00, de 26 de fevereiro.