O presidente da rede anti-pobreza defendeu hoje que a União Europeia criou «ilusões, injustiças e mentiras» que provocaram um «vazio económico» e obrigaram os portugueses a pagar com «aquilo que têm e o que não têm».

«Criou-se a ilusão de que a crise é a fonte de todos os males, quando a crise é já consequência do sistema», disse à agência Lusa o presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) Portugal.

Jardim Moreira considerou que Portugal foi «iludido» com propostas europeias, para terminar com as embarcações de pesca e com a agricultura «em troca de alguns tostões de imediato», que criaram «um vazio económico no país».

«Houve aqui toda uma série de ilusões, de injustiças e mentiras que se criaram em Portugal» e «agora obrigam-nos a pagar aquilo que não temos», lamentou o padre, que falava à Lusa a propósito do Dia Mundial da Justiça Social, que se assinala na quinta-feira.

Para Jardim Moreira, existe, «a nível europeu, uma desonestidade ética e política», porque Portugal é um «país de periferia, pobre e sem recursos naturais».

«Isso supõe uma mentalidade mais equitativa a nível europeu e uma solidariedade europeia que hoje não existe», afirmou, prevendo que «a solução que se pretende para Portugal [quando terminar o programa de ajustamento acordado entre o Governo português e a troika] é a solução que menos pese à Europa».

Para o padre, que preside à EAPN Portugal há mais de 20 anos, a «vontade europeia de que Portugal saia à irlandesa da crise não é para bem de Portugal, é para bem da Europa».

«Não é o bem do povo português que está em causa, são os vários governos que não se querem comprometer com verbas (...) para dar segurança a possíveis desequilíbrios orçamentais portugueses», sustentou.

Alertou ainda para as consequências «muito graves» desta situação, que irão refletir-se nos idosos, nas dificuldades de acesso à saúde, na emigração, no abandono escolar e na quebra de natalidade, «que vai ser grave a curto e a médio prazo».

«Daqui 20 anos que gente vai haver neste país para poder suportar os encargos de um serviço social, quem vai pagar?», questiona.

Portugal está diante de «uma situação bastante crítica, em que as vítimas vão ser sempre a população», nomeadamente a mais pobre.

«Há aqui uma pescadinha de rabo na boca que só uma postura de visão lúcida e corajosa dos políticos poderá intervir neste sistema, senão a população vai pagar isto bem caro», advertiu.

Jardim Moreira, que foi pároco de duas freguesias carenciadas do Porto (S. Nicolau e Vitória), disse que as pessoas exprimem sentimentos de ¿tristeza, revolta¿ e sentem ¿uma falta de esperança brutal¿.

«As pessoas mais pobres o que reclamam é que sejam reconhecidas como seres humanos e com dignidade. Quando não são capazes de aguentar isto suicidam-se e é isto que está a acontecer», lamentou.

Jardim Moreira lamentou que o «valor da dignidade humana» esteja a ser desvalorizado em detrimento dos critérios económicos sociais.

«Esta mudança de critério é que é grave, porque toda a economia, toda a política devia estar ao serviço do ser humano e não o ser humano ao serviço de critérios políticos ou económicos», justificou.

O Dia Mundial da Justiça Social foi criado em 2007, pela ONU, com o objetivo de apoiar os esforços da comunidade internacional para erradicar a pobreza, promover o trabalho digno, bem-estar e «justiça para todos».