Mais de meia centena de trabalhadores da KEMET, uma empresa que faz condensadores eletrónicos em Évora, vieram a Lisboa esta sexta-feira protestar contra o despedimento coletivo de 127 trabalhadores, alertando o Governo que a empresa está a deslocalizar-se para o México.

Antes de saírem de casa, Carla Barradas e o marido tentaram responder às perguntas da filha mais velha e explicaram-lhe que vinham a Lisboa lutar para manterem os postos de trabalho, numa zona onde os empregos são escassos.

O casal faz parte do grupo de 127 trabalhadores ameaçados de despedimento pela KEMET, uma empresa que em Évora produz condensadores de tântalo, umas pequenas peças eletrónicas usadas em computadores, telemóveis e eletrodomésticos, por exemplo.

«A minha filha percebeu, porque tem de perceber mesmo, porque não é fácil. Temos de lutar e vamos até ao fim», assegurou Carla Barradas.

De acordo com a proposta da empresa, Carla ficará até abril.

«Vou sair primeiro que o meu marido, que vai ficar até 30 de junho, que é o dia em que fecha a linha de produção», esclareceu.

Os trabalhadores concentraram-se a partir das 10:30 no centro do Largo Camões, perto do Ministério da Economia, a gritar momentaneamente palavras de ordem, a reclamar trabalho.

Se Rosa Ferreira acabar no desemprego, garante que não será por falta de luta.

Já trabalhou no campo, fez trabalho sazonal e temporário, onde havia, até que assentou na KEMET há 12 anos.

Desde que soube que estava na lista de despedimento, na semana passada, começou à procura de trabalho e percebeu que agora vai ser mais difícil.

«Tenho 40 anos, com a idade que tenho em mais lado nenhum consigo emprego, e não é o dinheiro que nos querem dar que vai resolver a nossa situação. Nós queremos é um posto de trabalho, não queremos receber uma indemnização», disse.

Uma delegação de trabalhadores foi recebida pelo secretário de Estado do Emprego, a quem já tinham pedido uma reunião em dezembro.

Hugo Fernandes, trabalhador da KEMET e delegado do Sindicato, saiu do ministério já ao princípio da tarde com a promessa de que a tutela iria acompanhar o caso deste despedimento coletivo «com outra atenção».

«A versão que nós trazíamos é um bocadinho diferente daquela com que a empresa já tinha alertado o ministério da Economia», salientou.

O sindicalista afirmou que os trabalhadores têm «provas de que é uma deslocalização» e que «a deslocalização não é motivo para fazer um despedimento coletivo».

«Sabemos que nos últimos anos a empresa tem deslocalizado vários produtos que fazia em Évora para o México, porque lá a mão de obra é mais barata e porque levaram também alguma tecnologia nossa, o que permite ter mais lucros fazendo o mesmo produto», afirmou.A empresa terá recebido cerca de 30 milhões de euros em apoios do Estado para criar empregos.

«Deveríamos pedir mais responsabilidade a estas empresas que se instalam no nosso país para receberem estes apoios», acrescentou.

Carlos Pinto Sá, presidente da câmara de Évora (CDU), veio acompanhar estes trabalhadores para mostrar a solidariedade do município.

«É gravíssimo, estamos em todo o país numa situação de grande desemprego. Em Évora, o desemprego é também muito significativo», como reporta a Lusa.

De acordo com o autarca, há cerca de 4.500 desempregados no concelho em «termos reais, porque os números oficiais não mostram todo o desemprego que existe», representando 15% da população ativa residente.