O presidente da administração do Hospital de São João, Porto, defende ser possível eliminar a Hepatite C no país se o Estado garantir o tratamento a todos os infetados com os novos antivirais e recusar o lobby farmacêutico.

«Dispomos de todos os instrumentos necessários a uma estratégia de eliminação da doença», assinala António Ferreira, num artigo de opinião publicado no «Jornal de Notícias», no qual destaca que, «pela primeira vez, graças aos novos medicamentos, é possível tratar eficazmente a hepatite C».

Para o efeito, propõe que o «tratamento da Hepatite C em Portugal se baseie apenas na associação dos novos antivirais», por oposição aos atuais tratamentos que, diz, são comercializados «a preços verdadeiramente pornográficos e incompatíveis para qualquer sistema de saúde».

«Tratar a hepatite C em Portugal custará entre quatro mil e oito mil milhões de euros», pelo que, com o atual orçamento da saúde a fixar-se nos cerca de nove milhões, «não é possível tratar todos os doentes com hepatite C», assinala.

Porque a atual estratégia «serve os interesses da indústria farmacêutica», ao apostar no tratamento «excecional a preços muito altos dos poucos doentes (...) em risco de vida», António Ferreira considera que este plano «não tem lógica em termos de saúde pública, porque permite que o vírus continue a disseminar-se», para além de não ter «racionalidade em termos económicos».

O administrador propõe «que se garanta o tratamento a todos os infetados, independentemente do estádio da doença» e que «se inicie um processo negocial com os fornecedores, baseado num programa a implementar em 10 a 15 anos, a um custo médio nunca superior a 10 mil euros por doente tratado».

Uma vez que «a maioria dos novos antivirais não está, ainda, aprovada pela agência europeia do medicamento», António Ferreira destaca que o Estado pode usar da «prerrogativa de autorizar a [sua] utilização especial», já que as normativas comunitárias assim o permitem.

«Este processo, para além de garantir uma mais do que justa remuneração da indústria, seria sustentável para o SNS [e] implicaria uma despesa de 500 mil euros a mil milhões de euros diferida por 10 a 15 anos (bem menor que a despesa anual atual)», assinala.

Propõe por fim que «o executivo e as forças políticas representadas na Assembleia da República, recusando a atividade lobista da indústria farmacêutica, assumam este desiderato como um imperativo nacional (...) e se unam no objetivo de combater este flagelo de saúde pública».