A Câmara do Porto aprovou esta terça-feira, com 12 votos a favor e o voto contra do vereador da Proteção Civil, Sampaio Pimentel, recomendar à Comissão de Toponímia que atribua o nome de José Saramago a uma rua da cidade.

No fim de um debate que envolveu inúmeras citações literárias e fortes críticas de Sampaio Pimentel ao Prémio Nobel da Literatura de 1998, o presidente da autarquia, Rui Moreira, defendeu que a próxima artéria da cidade «com relevância» deve, no entanto, receber o nome da poetisa Sophia de Mello Breyner Andersen.

A recomendação da CDU, apresentada no período de antes da ordem do dia da reunião pública do executivo, retomou uma ideia chumbada pela anterior maioria camarária PSD/CDS, em 2010, com o argumento de que a CT apenas aceitava «nomes de cidadãos com ligação direta ao Porto».

Sampaio Pimentel, que foi eleito em setembro na lista de independentes de Rui Moreira e em 2010 integrava o executivo como vereador do CDS, explicou hoje que «não haver ligação [de José Saramago] à cidade não é um obstáculo inultrapassável», mas indicou outros problemas.

«José Saramago pautou toda a sua vida por uma arrogância intelectual absolutamente primária. Protagonizou cenas estalinistas, com o saneamento e despedimento de inúmeros jornalistas. Para mim, mais importante do que ser um grande escritor, é ser uma grande pessoa e, para mim, José Saramago não foi uma grande pessoa», frisou.

Amorim Pereira, do PSD, citou Saint-Exupéry para defender que «uma alma que se eleva, eleva o mundo», destacando que a «relevância literária» de Saramago «é suficiente para esquecer algumas facetas».

Antes disso, o social-democrata Ricardo Almeida justificou o voto favorável do PSD com o dever de «separar o trajeto político» do escritor do seu percurso literário.

Rui Moreira, o independente que desde outubro lidera a autarquia numa coligação pós-eleitoral com o PS, começou por alertar que, «relativamente aos nomes de ruas», o Porto tem «um problema«, por ser uma «cidade construída onde é difícil existir uma nova artéria de relevo».

«Não consigo ver como é que, nos próximos tempos, teremos uma rua relevante para atribuir o nome da poetisa Sophia de Mello Breyner ou de José Saramago», vincou.

O autarca avisou ainda que a alteração no nome de ruas não tem trazido bons resultados, exemplificando com o caso da praça Francisco Sá Carneiro, ainda hoje identificada por «Velasquez».

Em comunicado divulgado na quarta-feira, a CDU explicou ter decidido reapresentar a proposta perante «a possibilidade» de corrigir a «injustiça» cometida pelo anterior executivo para com «José Saramago, a Cultura e a Língua Portuguesa».

A CDU do Porto classificou como uma «profunda demonstração de intolerância» a rejeição da maioria PSD/CDS da mesma proposta em 2010.

«O sectarismo da coligação foi tamanho e mesmo a apresentação de condolências à família mereceu a abstenção do presidente da Câmara e de cinco dos seus vereadores, e o voto contra do vereador do CDS Sampaio Pimentel», descreveram no comunicado.

Apesar da reprovação, a 13 de julho de 2010 a proposta foi aprovada pela Assembleia Municipal com 42 votos a favor e oito abstenções.

A situação gerou ampla polémica e, a 28 de julho, a autarquia esclareceu que a «razão principal» do chumbo foi o facto de, desde 2002, a CT «apenas aceitar propor nomes de cidadãos com ligação direta ao Porto para ruas da cidade».

A autarquia divulgou, então, uma carta enviada pelo presidente da Câmara, Rui Rio, onde o autarca criticava a «postura de contorno intolerante» de Saramago, quando este promoveu «saneamentos políticos de jornalistas» enquanto «diretor adjunto do DN».