O presidente do Conselho Nacional de Educação, David Justino, disse neste sábado que não basta a escolarização e que é necessário a sociedade abrir «um novo sistema de oportunidades» que não seja «tão discriminatório, inibidor e fechado».

«Não basta ter mais gente mais qualificada e escolarizada, é fundamental que a sociedade consiga produzir oportunidades para que aqueles que se qualificam possam aplicar esse capital que foram construindo ao longo do tempo», disse David Justino, citado pela agência Lusa, no Congresso para o Crescimento Sustentável, que decorreu no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), em Lisboa.

O antigo ministro da Educação falou sobre as origens da escola pública e sobre o objetivo de se utilizar a educação como instrumento para atenuar as desigualdades sociais.

«Há uma esquerda que tradicionalmente criou esse sonho, o de criação de um homem novo, igual, formado pela escola pública que pudesse, com o capital adquirido e com essa escolarização, criar uma sociedade mais igualitária. Não foi isso que aconteceu», disse.

Por isso, David Justino frisou que é preciso entender o capital educativo que se está a produzir, assim como a capacidade que as sociedades têm para responder a esse aumento de capital humano e escolarização.

«Entender uma coisa sem entender a outra é um erro pelo qual estamos a pagar hoje muito caro», sublinhou.

O responsável reforçou ainda que «o problema que se põe é qualificar a educação, exigindo mais, mas não vale de nada fazer grandes investimentos, se a sociedade - não o Estado - não conseguir criar novas oportunidades, pois aí elevam-se as expetativas sem as conseguir concretizar».

O presidente do Conselho Nacional de Educação sublinhou que «é preciso haver capacidade de olhar para o futuro, para o médio e longo prazo, assente num programa capaz de gerar expetativas e criar um sistema que não seja tão fechado, inibidor e discriminatório que conduz precisamente à desigualdade dessas oportunidades».

«Neste momento, o sistema está cada vez mais fechado e inibidor, é quase um desincentivo àqueles que ainda estão no ensino. Eles pensam: 'Estudar para quê? O que é que eu ganho com isso?'», disse.

David Justino dirigiu uma palavra aos jovens de hoje, sublinhando que as novas gerações «têm razão de queixa», relativamente à sua geração, que «teve todas as oportunidades».

«Dizem que eles não sabem ler, não sabem escrever, não sabem matemática. Há uma frase: 'no meu tempo é que era' que é de uma injustiça enorme, porque eles [jovens estudantes de hoje] são muito melhores do que aquilo que eu conseguia ser com a idade deles e dificilmente as pessoas conseguem reconhecer isso», afirmou.

É precisamente esta incompreensão, destacou, que leva a «uma reprodução incessante das desigualdades, não só de distribuição do rendimento, mas de apropriação de oportunidades».

«Este é talvez o principal desafio», disse.