José Manuel Silva foi reeleito na semana passada bastonário da Ordem dos Médicos, mas quer concentrar o seu novo mandato na defesa dos doentes e do Serviço Nacional de Saúde (SNS). «Só vamos conseguir cumprir o papel de defender os doentes denunciando os problemas», afirma. «Julgo que a principal lição a tirar destas eleições com maior consenso é que os médicos estão preocupados e empenhados a defesa do Serviço Nacional de Saúde (SNS)», diz numa entrevista ao jornal «i».

«Há uma insensibilidade profundamente preocupante da tutela relativamente à realidade do exercício da Medicina». José Manuel Silva queixa-se que os médicos não têm falta de «atenção», mas «falta de tempo» para os doentes e acrescenta a «falta de material» e a burocracia». E convida o ministro a ver co os seus próprios olhos e «fazer visitas sem pré-aviso às urgências». «A medicina está-se a desumanizar. E se o ministro não sabe o que se passa no terreno é porque não quer».

Se o ministro Paulo Macedo não faz essa visita ao terreno, o novo bastonário promete fazê-lo: «Um dos meus objetivos para o próximo triénio é fazer uma volta pelo país para falar com os colegas e avaliar o estado da Saúde».

«Há muitos e graves problemas neste momento» na Saúde em Portugal. José Manuel Silva dá um exemplo. Nas «urgências do hospital de Aveiro havia 39 doentes internados em macas há três dias». Consequências do modelo de gestão: «Não entendo como é que não tem havido algum esforço para mudar o modelo de gestão. A única coisa que há é cortes».

Mais: «não há uma preocupação com a perda de qualidade e seriedade do SNS» e no governo «há claramente uma perspetiva de Estado mínimo».

E acrescenta ainda: «Há hospitais que se preocupam mais com as contas do que com os doentes».

As críticas não se ficam por aqui: «Se tivesse hepatite C, já tinha posto o ministério da Saúde em tribunal, por sonegar o direito ao tratamento. Foram condenados à morte pelo atraso na aprovação da medicação».

«Só vamos conseguir cumprir o papel de defender os doentes denunciando os problemas», mas reconhece que essa queixa nem sempre é fácil por parte dos profissionais de saúde: «São funcionários, podem ser objeto de processo disciplinar. Isso faz com que os médicos que vestem a camisola dos doentes sejam perseguidos e temos colegas perseguidos nos locais de trabalho».

O médico de Coimbra continua a prescrição de críticas: «Não acredito nas estatísticas do SNS», assumindo que «neste momento temos uma censura dos dados de saúde». E por quê? «Um governo de maioria absoluta comete todas as ilegalidades que lhe apetecer. A lei não se aplica, por isso é que não vivemos numa democracia mas em partidocracia», conclui na entrevista ao «i».

«Às vezes a classe política tem dificuldades em lidar com a verdade. Mas eu não sou político», tal como explica do convívio crescente com os políticos que a política «não se faz pelas razões mais nobres».

O médico não tem ambições políticas, mas tem opinião: «A minha geração viveu à custa dos pais e agora vive à custa dos filhos, porque lhes vamos deixar uma dívida pública e privada monstruosa. A geração pós-25 de Abril foi das mais egoístas da geração portuguesa».

José Manuel Silva que descarta ambições políticas, também rejeita as críticas de ser populista: «Não considero que defender os doentes ou o SNS seja populista».