As famílias das seis vítimas que morreram na praia do Meco avançaram com uma queixa contra o procurador que arquivou o processo e exigem que este esclareça publicamente por que afirmou que o médico que assistiu João Gouveia na noite da tragédia admitiu ter-se enganado no diagnóstico que tinha feito ao único sobrevivente.

Meco: estratégia passou por descredibilizar as testemunhas

Nas inquirições a que a TVI teve acesso, em nenhum momento se lê que o clínico admitiu o erro. Pelo contrário: quando foi ouvido pela segunda vez pelo mesmo procurador, reafirmou que João Gouveia não entrou no hospital Garcia de Orta com sintomas de hipotermia, o que justificou o despacho de arquivamento.

A TVI sabe que a queixa do advogado das famílias seguiu esta quinta-feira para a Procuradoria-Geral da República.

«O médico de urgência que assistiu João Gouveia admitiu que "atropelou" as boas práticas, veio aos autos, em reinquirição, fazer o "mea culpa" clínico» - esta é a afirmação do procurador destacada no despacho de arquivamento.

Em causa, o suposto dito por não dito do médico que teria assistido no Hospital Garcia de Orta, na noite da tragédia, o único sobrevivente. O mesmo médico que teria apenas diagnosticado a João Gouveia uma cefaleia moderada, ou seja, uma dor de cabeça e não um estado de hipotermia e que agora, segundo o procurador, teria feito «mea culpa» do erro cometido.

O problema é que o médico em questão não só não se retratou, como não assumiu qualquer erro de diagnóstico. Bem pelo contrário: quando é ouvido pela segunda vez pelo procurador, reafirmou que João Gouveia não estava em estado de hipotermia quando deu entrada no hospital.

A 11 de março, quando foi ouvido primeira vez pelo procurador, o médico disse: «João Gouveia queixou-se de dores de cabeça, tendo-lhe sido medicado paracetamol. Não fiz quaisquer exames de diagnóstico, nem submeti o doente a análises clínicas porquanto o tipo de queixa apresentado e pela observação realizada se bastava com a medicação referida».

Na segunda inquirição, a 13 maio, a tal em que se teria retratado, afirmou: «Quanto à administração do paracetamol, volto a dizer que se deveu ao facto do paciente ter manifestado tonturas, o que achei compatível com aquele ato terapêutico».

«Com a minha larga experiência de décadas de medicina e de situações de afogamento, entendi que auscultação ao corpo do sobrevivente seria suficiente para se perceber de alguma perturbação, que não encontrei», acrescentou.

«Isto é gravíssimo. Dizer-se num despacho que o médico assumiu que atropelou as práticas é do mais grave que pode existir, para mais quando está em causa saber se uma pessoa esteve ou não em pré-afogamento e que pode ser fundamental para a própria analise de todo este processo», comentou o advogado das famílias das vítimas.

Quando João Gouveia deu entrada no hospital, foi-lhe feita a medição da temperatura do corpo e o termómetro registava 36 graus, que não é consistente com o estado de hipotermia alegado pelo sobrevivente.

«É importante que a sociedade portuguesa tenha a perceção do que se está a passar por trás de todo este processo. É fundamental. Cada vez mais nos sentimos com uma revolta de que queremos ser esclarecidos e que alguém está a tentar encobrir e enganar. O que é triste é que tenha sido um procurador em que confiamos. Isto é o procurador que nos tentou enganar. O procurador devia esclarecer isto e retratar-se no erro grave que cometeu», afirmou a mãe de Catarina Soares, uma das vítimas.

«Nós somos educados para acreditar na Justiça. Agora, se a Justiça nos está a pregar estas rasteiras, não estou a perceber», acrescentou o pai.

A TVI confrontou esta tarde, por telefone, o procurador Moreira da Silva, que não quis fazer qualquer comentário.