A Madeira regista atualmente quatro casos de dengue, todos importados, o que prova que o trabalho de contenção está a funcionar, mas também que há risco da entrada de um novo vírus no arquipélago, alertou o investigador Jorge Atouguia.

Em entrevista à Lusa a propósito de um workshop que o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) promove esta semana sobre o dengue, o especialista explicou que a Madeira «tem feito um trabalho muito interessante», tanto no controlo do mosquito que transmite o dengue, como na educação para a saúde e na saúde pública.

«A prova disso é que no ano passado por esta altura estávamos com um surto de dengue e neste momento os casos são quatro e todos importados», disse o investigador do IHMT, recordando que «esta é a altura ideal para aparecerem casos, porque ainda está calor, mas já começou a chover».

E o facto de os casos serem todos do exterior levanta o risco de importação de um serótipo diferente. «Isso é algo que não pode nem deve acontecer. Se entra outro, há muito mais possibilidade de formas graves da doença», esclareceu.

Em causa está o facto de existirem pelo menos quatro serótipos diferentes do vírus do dengue e, embora o contacto com um dos vírus crie imunidade a esse serótipo, provoca simultaneamente uma maior vulnerabilidade aos restantes.

«Há que impedir a todo o custo a entrada de um novo serótipo», através de um controlo apertado de todas as pessoas com febre que tenham viajado de uma zona endémica nos últimos 15 dias, defendeu.

Apesar de atualmente a situação ser positiva, «se não houver uma pressão continuada, a Madeira vai voltar a ter dengue», explicou o médico.

Sobre o risco de dengue em Portugal, Atouguia recordou que o mosquito vetor do dengue existe em Itália, França e Espanha, mas não há evidências de que esteja presente em Portugal continental.

Apesar disso, a Direção-Geral da Saúde «está preocupada» e tem um grupo de trabalho que está a traçar planos de contingência, informou.

Apesar de se conhecer a presença do mosquito vetor do dengue na Madeira desde 2005, só em outubro do ano passado foram registados laboratorialmente os primeiros casos de febre de dengue. Desde essa altura e até este verão foram registados 2.170 casos e 127 doentes foram internados, mas não houve casos fatais.

Descoberta de novo vírus baralha busca de vacina

Jorge Atouguia considerou que a recente descoberta de um novo serótipo do vírus que provoca o dengue vem complicar a busca de uma nova vacina, processo que até há um mês parecia promissor.

O novo vírus, anunciado no final de outubro durante uma conferência em Banguecoque, foi descoberto por acaso, quando investigadores estudavam amostras do vírus do dengue recolhidas durante o surto de 2007 no estado de Sarawak, na Malásia.

Face à suspeita de que estariam perante um serótipo diferente dos quatro já conhecidos, os cientistas sequenciaram o vírus e descobriram diferenças filogenéticas, tendo também confirmado que os anticorpos produzidos contra o vírus em macacos eram significativamente distintos dos produzidos pelos vírus já conhecidos.

A dificuldade em encontrar uma vacina para o vírus do dengue explica-se porque, embora o contacto com um dos vírus crie imunidade a esse serótipo, provoca simultaneamente uma maior vulnerabilidade aos restantes. Ou seja, uma pessoa infetada com o serótipo 01 fica imune a esse vírus, mas pode desenvolver formas mais graves, ou mesmo fatais, de dengue se for posteriormente infetado com o serótipo 02, 03 ou 04.

Por isso, qualquer vacina tem de incluir todos os serótipos, explicou: «Até aparecer este novo serótipo, a vacina que estava a ser ensaiada estava relativamente bem. Funcionava muito bem para o 01, 03 e 04, mas não funcionava bem com o 02.»

O número de casos de dengue duplica de década para década; o dengue está a avançar; a necessidade da vacina é imperiosa», alertou.