O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa comentou esta terça-feira a condenação do padre do Fundão por abuso sexual de menores, considerando que «a lei é igual para todos».

«Quer seja membro da Igreja ou não, a lei é igual para todos. Todos nós, como cidadãos, temos de ser responsáveis pelos nossos atos», disse o Patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, Manuel Clemente, à agência Lusa, à margem de uma conferência na Universidade Católica Portuguesa.

O Tribunal do Fundão condenou, na segunda-feira, a dez anos de prisão, o ex-vice-reitor do Seminário do Fundão, que estava acusado de 19 crimes de abuso sexual de menores.

A pena foi aplicada em cúmulo jurídico e o tribunal deu como provados todos os crimes: abuso sexual de menores, abuso sexual de crianças e coação sexual.

Manuel Clemente ressalvou, no entanto, que o processo ainda está a decorrer, uma vez que a diocese anunciou já a intenção de apresentar recurso da decisão judicial.

Paralelamente, segundo o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa(CEP), o processo decorre também dentro dos trâmites jurídicos da Igreja.

«É isso que tem de acontecer. Sempre que há um caso tem de se elucidar, tem de se responder com responsabilidade e levar por diante tudo que apure o que realmente se passou e as consequências a tirar daí», sublinhou o também Patriarca de Lisboa.

Questionado sobre o facto de a Diocese da Guarda ter anunciado a intenção de apresentar recurso, Manuel Clemente considerou que «o apoio da diocese a este recurso com certeza que é fundamentado».

«A Diocese da Guarda, desde o primeiro momento em que o caso foi manifestado, tem-se mostrado muito responsável, quer do ponto de vista civil, quer eclesiástico, para dar seguimento ao assunto», acrescentou.

De acordo com o que ficou provado, Luís Mendes, de 37 anos, abusou de seis crianças com idades entre os 11 e os 15 anos, cinco das quais alunos em regime de internato no Seminário do Fundão.

Não podemos adormecer perante desrespeito pela dignidade humana

O Patriarca de Lisboa defendeu também hoje que não podemos adormecer perante o desrespeito pela dignidade humana, comentando desta forma a recente exortação do Papa, em que criticou o capitalismo selvagem e alertou para o perigo das desigualdades e da injustiça social levarem a uma explosão da violência.

«No que diz respeito à sociedade, o papa Francisco tem encontrado palavras muito justas e muito claras para meter o dedo em muitas feridas que a nossa sociedade manifesta, não só dentro dos países que nos tocam mais de perto, mas entre países ricos e países pobres, de muito desrespeito pela dignidade humana», defendeu Manuel Clemente.

Para o Patriarca de Lisboa, «parece que adormecemos em relação a situações que não podemos manter» e só «acordamos quando há uma Lampedusa em que morre muita gente a tentar chegar à Europa».

«Situações desse género são muito repetidas e não nos podemos habituar a elas. Porque estando em causa a humanidade dos outros está em causa a nossa própria humanidade e se adormecemos aí, depois também adormecemos aqui», sublinhou.