O fundador do Banco Privado Português (BPP) considerou hoje «absurdas» as acusações que o levaram a julgamento, designadamente que foi ocultada informação aos clientes sobre investimentos do BPP em ações do BCP, que resultaram em prejuízos elevados.

Rendeiro é inocente do crime de burla porque «não enriqueceu»

«Sou economista e continuo a ter dificuldade em entender a acusação», declarou João Rendeiro, na qualidade de arguido, ao prestar as primeiras declarações no julgamento que hoje se iniciou nas Varas Criminais de Lisboa e que sentou ainda no banco dos réus Salvador Fezas Vital, ex-administrador do BPP. O terceiro arguido, Paulo Guichard, também antigo gestor do banco, que reside no Brasil, esteve ausente da audiência.

Em resposta a perguntas do coletivo de juízes, presidido por Nuno Salpico, João Rendeiro frisou que foi presidente do banco, mas que deixou de exercer funções executivas a partir de 2005, para se dedicar à Private Equity, ou seja à área de capital de risco.

João Rendeiro explicou ao tribunal que, em termos estratégicos, o BPP decidiu investir na compra de ações do BCP, que estava envolvido numa Oferta Pública de Aquisição (OPA) com o Banco BPI, admitindo que as diversas «guerras internas» no BCP, nomeadamente entre Paulo Teixeira Pinto e Jardim Gonçalves, não eram do conhecimento dos responsáveis do BPP.

O fundador do BPP, que responde pelo crime de burla qualificada, falou ainda da «facilidade» com que o BPP obteve um financiamento avultado junto do banco norte-americano JP Morgan para apostar nos títulos do BCP e da queda acentuada da sua cotação em janeiro de 2008, altura em que Filipe Pinhal ficou «inibido» de se candidatar à direção do BCP por ser um dos visados numa investigação que estava em curso.

Explicando a desvalorização acentuada das ações do BCP nessa altura, João Rendeiro lembrou que os investidores «não gostaram da indigitação» de Carlos Santos Ferreira para a presidência do banco fundado por Jardim Gonçalves, tendo a nomeação do gestor, em pleno governo de José Sócrates (PS), sido entendida como uma espécie de «estatização do BCP», com a entrada de uma equipa que vinha da Caixa Geral de Depósitos e que integrava o antigo ministro socialista Armando Vara.

João Rendeiro explicou que o BPP não se deixou, contudo, «impressionar» com a queda do valor das ações do BCP, mantendo o entendimento que se tratava ainda de um «bom investimento», apesar de o banco estar na altura envolvido num processo de aumento de capital, o que não agrada aos investidores, já implica a diluição do valor das ações ou, nas palavras do arguido, «pôr dinheiro em cima da mesa».

Os problemas de liquidez do BPP e a supervisão do Banco de Portugal levaram João Rendeiro a ter uma reunião com os supervisores bancários em 31 de janeiro de 2008, em que ficou decidido que teria de comunicar aos investidores da Privado Financeiras um aumento de capital.

A inquirição de Rendeiro foi precedida de uma alegação inicial do seu advogado José Miguel Júdice, que atacou a acusação do Ministério Público e apontou para a inocência

do seu cliente.

Segundo a acusação, a atuação dos arguidos teve como consequência um prejuízo patrimonial para os clientes da Privado Financeiras, veículo de investimento do universo BPP, calculado em 40 milhões de euros.

O MP considera que Rendeiro, Fezas Vital e Guichard «enganaram os ofendidos, todos clientes do BPP e investidores na Privado Financeiras», já que criaram «de forma voluntária, consciente e intencional uma errada convicção acerca da sustentabilidade financeira deste veículo [Privado Financeiras]».

Francisco Pinto Balsemão e Stefano Saviotti são os nomes mais sonantes da extensa lista de testemunhas que irá depor neste julgamento, que é o primeiro a arrancar no âmbito do chamado Caso BPP.