A Ordem dos Médicos revelou, esta quinta-feira, que há médicos pressionados pelas administrações hospitalares para não fazerem pedidos de autorização especial para o novo medicamento contra a Hepatite C e que a maioria destes pedidos não chega ao Infarmed.

Doentes desesperam por fármaco que já devia ter sido aprovado pelo Infarmed

Numa conferência de imprensa promovida pela SOS Hepatites, a dirigente desta associação disse ter chegado ao seu conhecimento que em março havia 85 pedidos de Autorização de Utilização Especial (AUE) para o medicamento Sofosbuvir, o único que dá para todos os genótipos da infeção.

Este medicamento foi aprovado na Europa em janeiro e aguarda atualmente aprovação pelo Infarmed. Enquanto isso não acontece, para cada caso mais grave, os hospitais têm de fazer um pedido de AUE, que é enviado, avaliado e aprovado, ou não, pela autoridade do medicamento.

A SOS Hepatites diz que os seus doentes se queixam de que os médicos fazem os pedidos, mas as autorizações e os medicamentos nunca chegam.

A este propósito, o bastonário da Ordem dos Médicos, que se associou a estes doentes, José Manuel Silva, disse ter informação de que «só chegaram dois pedidos ao Infarmed» e que estes foram autorizados.

Segundo o bastonário, «o problema não está no Infarmed, está nos hospitais, que bloqueiam a chegada dos pedidos».

«Sabemos que há médicos pressionados pelas administrações hospitalares para não fazerem seguir os pedidos», revelou.

A situação é tal, acrescenta, que «há médicos neste momento que têm medo de falar, porque lhes foi imposta a lei da rolha».

«Nós [Ordem] dizemos-lhes que devem tratar os doentes e fazer os pedidos de AUE de acordo com a evidência científica e não cedendo à pressão dos CA hospitalares, porque o bloqueio tem de vir de outrem», contou.

José Manuel Silva apelou aos doentes para que peçam ao seu médico cópias dos pedidos de AUE e os enviem à Ordem, para que esta possa intervir e interpelar os CA hospitalares e denunciá-los publicamente.

«Com os pedidos na mão poderemos ser consequentes e fazer alguma coisa de facto», sublinhou.

Questionado pelos jornalistas sobre se já tinha conhecimento de algum caso de algum CA hospitalar em concreto que estivesse a fazer esse «bloqueio» às AUE, o bastonário respondeu afirmativamente, mas escusou-se a apontar, para já, os nomes, considerando que a responsabilidade última é do Ministério da Saúde.

«Sabemos de casos concretos, mas não é altura agora de revelar os hospitais. Têm dificuldades, que compreendemos, decorrentes da lei dos compromissos. Quem está a condicionar a posição do Infarmed e dos hospitais é o Ministério da Saúde. A responsabilidade é deles», defendeu.