Para Gustavo Carona, esta é a sua quinta missão com os Médicos Sem Fronteiras (MSF). Depois de Congo, Paquistão, Afeganistão e Líbia, chegou a vez deste médico anestesista do Porto viajar para a Síria para ajudar um país em conflito.

Gustavo passou esta segunda-feira a fronteira da Síria vindo da Turquia. No entanto, só amanhã poderá chegar ao sítio onde vai trabalhar com a equipa de seis pessoas da qual faz parte.

Em conversa com o tvi24.pt, Gustavo afirma que «estava mortinho para ir para a Síria», porque o país está bastante necessitado de ajuda médica.

Fiel à ideologia dos «MSF», apesar de querer estar na Síria para ajudar, este médico não escolheu ir para lá.

«Com o máximo de honestidade possível disse-lhes "vou para onde vocês quiserem que eu vá". Eu já trabalhei com eles noutras missões e sei que se eles vão é porque esse país precisa», afirma Gustavo.

E assim foi. Cheio de motivação, o médico anestesista que nos últimos tempos se dedicou aos Cuidados Intensivos do Hospital de São João no Porto e ao INEM, rumou à Síria para ajudar «no que for preciso».

No entanto, nem sempre essa ajuda é fácil. A diferença de crenças e ideologias conjugada com a dificuldade em separar a pessoa do profissional complicam o trabalho.

«Tento sempre separar o que penso como médico daquilo que penso como pessoa. Este é um trabalho muito exigente e é preciso muita clarividência para o fazer. Se eu fosse indiferente a esta situação não estaria aqui perante tantas dificuldades. Mas nas situações mais complicadas, temos de esconder os sentimentos e só reagir depois, longe do local onde fomos confrontados», conta Gustavo.

Foi num desses «momentos complicados» que Gustavo viveu uma das situações que mais o marcou. Uma jovem, de 23 anos, grávida do quarto filho, tinha entrado em trabalho de parto. Eram cerca das duas da manhã quando foi chamado para ajudar, mas quando lá chegou não conseguiu salvar a jovem por decisão do marido desta. Era necessária uma cesariana e o marido não aceitou.

O médico português relata esse momento no seu blog, mas ao telefone confessa que essa história o marcou bastante.

«Culminou com uma morte de uma mulher que podia ter sido evitada», desabafa, acrescentando que para o marido da jovem - um homem com cerca de 50 anos - «era indiferente se ela morria ou não, ele podia comprar outra».

«Nestes países funciona assim. São os homens que têm de dar autorização para que as mulheres sejam operadas, porque acreditam que uma mulher depois de ser mexida por dentro já não é bem aceite pela sociedade», afirma Gustavo.

«Depois de sair do hospital, deitei-me na cama e chorei desalmadamente até adormecer! Não podia ir abaixo lá, pois não havia ali mais ninguém que soubesse fazer o que faço, e muitas vidas dependiam de mim», revela, acrescentando: «Chorei, não esqueci, mas andei para a frente».

Para um médico sem fronteiras anda-se sempre para a frente. Segundo Gustavo Carona, as diferenças não podem criar mais barreiras do que as que já existem.

«Como médicos, o nosso conceito de vida obriga-nos a olhar para todas as vidas da mesma forma. Mas depois há estas barreiras transparentes e intransponíveis. Há alguma aceitação perante a nossa opinião médica por uns e total indiferença por outros», garante.

A Síria encontra-se debaixo de um conflito político há dois anos. O país está a desaparecer, principalmente depois das forças de Bashar al-Assad terem usado armas químicas num ataque que matou centenas de pessoas em Damasco a 21 de agosto. Os ataques sucedem-se. Os últimos aconteceram recentemente. No passado sábado, um ataque em Alepo fez 25 mortos. Já no domingo, um novo ataque junto de uma mesquita em Suq Wadi Barada fez 40 mortos.