O elevado número de cesarianas efetuado no serviço público de saúde deve-se ao facto de os hospitais não terem profissionais suficientes «para que haja tranquilidade» na hora de decidir, conclui um estudo divulgado nesta terça-feira pela Universidade de Aveiro.

O estudo sobre a realização de partos, elaborado pelo Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial (DEGEI) da Universidade de Aveiro, conclui que a preferência pela cesariana é tomada muitas vezes num contexto de cansaço por turnos prolongados e partos morosos.

«No setor público, os médicos ganham uma remuneração fixa, independentemente das consultas ou das cirurgias efetuadas. Assim, a preferência pela cesariana em detrimento do parto natural não se deve a questões económicas mas organizacionais. A opção pela cirurgia deve-se ao facto de os hospitais não terem profissionais suficientes para que haja tranquilidade na tomada da decisão mais apropriada», refere o estudo.

O trabalho da Universidade de Aveiro regista que existem equipas «a fazer turnos de muitas horas e muitas cesarianas são decididas, na sequência de trabalhos de parto prolongados, no momento do cansaço e antes de entrar pela madrugada adentro».

A decisão pela cesariana «tende a ser tomada para evitar a vigília médica durante a madrugada», adverte a investigação de Aida Isabel Tavares e Tânia Rocha, do DEGEI.

Já no setor privado são razões económicas que ajudam a explicar o elevado número de cesarianas praticadas, concluem as duas investigadoras da Universidade de Aveiro.

«Uma cesariana custa, em média, o dobro de um parto normal», aponta Aida Isabel Tavares, lembrando que, se o parto for por cesariana, a mãe e o recém-nascido têm que ficar mais dias no hospital, o que tem um custo acrescido por cada dia suplementar.

Para a investigadora, nem sempre é alheia à decisão o facto de, no setor privado, a remuneração de um médico obstetra ser composta por uma componente fixa e outra variável, que depende do número de consultas ou de intervenções realizadas pelo médico.

«Poderá acontecer que haja incentivos para que os obstetras procurem induzir as grávidas a fazer uma cirurgia [cesariana] e a realizar mais consultas, o que significa mais benefícios económicos, quer para o hospital, quer para o obstetra», admite Aida Tavares.

A investigadora sublinha que os médicos, enquanto agentes económicos, possuem mais informação do que os pacientes e podem induzi-los a realizar mais consultas, mais exames de diagnóstico ou mais tratamentos do que o necessário, para que possam atingir os seus objetivos pessoais.

«A este fenómeno dá-se o nome de procura induzida, isto é, induzir alguém a procurar um bem ou serviço. Neste caso poder-se-á dizer que as mães poderão ser induzidas a realizar cesarianas», diz.

As cerca de 27 400 cesarianas registadas em Portugal no ano de 1999, distribuídas pelos setores público e privado, aumentaram para mais de 34 300 realizadas em 2009, tendência de crescimento que se mantém, segundo o estudo.

Em 2010 o país registou uma taxa de cesarianas de cerca de 36 por cento (por 100 nados-vivos), valor muito acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde que aponta que a taxa não deve ultrapassar os 15 por cento, já que a saúde de mães e recém-nascidos pode ser afetada com a realização de cesarianas desnecessárias.