Uma mulher com cancro levou dois anos para fazer uma colonoscopia no hospital Amadora-Sintra. Quando veio a fazer o exame, o cancro já se tinha espalhado e era inoperável. O ministério já veio lamentar a situação que descreveu como «intolerável». O caso vai ser alvo de um inquérito por parte da Inspeção das Atividades em Saúde (IGAS).

O «Diário de Notícias» (DN), na sua edição desta quarta-feira, conta a história de uma mulher com cancro, que identifica como Emília.

Emília tem cerca de 60 anos e, após vários rastreios ao cancro colorretal, surgiu uma análise positiva. O médico de família encaminhou imediatamente o processo para o hospital, de modo a que a paciente fosse seguida no hospital Fernando da Fonseca, conhecido como Amadora-Sintra, na consulta de gastrenterologia. A mulher levou um ano para ser chamada para a consulta e esperou outro para fazer o exame. Segundo o jornal, quando Emília fez a colonoscopia o cancro já tinha apanhado o intestino e era «grande» e «inoperável».

A unidade hospitalar reconhece o atraso e argumenta que, mesmo quando a análise é positiva, tem de haver uma seleção dos doentes por falta de recursos, como refere ao jornal o diretor de serviço de gastrenterologia do hospital, Nuno Alves: «A população do hospital é vasta, 500 a 600 mil pessoas, e só temos sete médicos no serviço. Estamos à espera há um ano para contratar». Com «uma resposta limitada, temos de triar».

Entretanto, contactada pela agência Lusa, fonte oficial do hospital Amadora-Sintra disse que não fará qualquer declaração ou comentário sobre o caso até à conclusão do inquérito pela IGAS.

O Ministério da Saúde já reagiu ao caso de Emília. Em declarações à agência Lusa, fonte oficial do Ministério da Saúde disse ser uma situação «intolerável», que «lamenta profundamente».

O caso vai ser alvo de um processo de averiguações pelo IGAS, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde. Fonte do ministério da Saúde disse ao DN que O IGAS vai analisar a escassez de resposta na zona de Lisboa, uma situação, aliás, já admitida pelo ministro Paulo Macedo, que prometeu resolvê-la até ao fim do ano.

«Há escassez e quem produz não está interessado no acordo com o SNS», disse a fonte.

O diretor do programa nacional para as doenças oncológicas, Nuno Miranda, afirmou ao diário que a espera por uma colonoscopia «não devia passar os dois meses, mas se atingíssemos seis não era mau». Emília está agora a fazer «quimioterapia neoadjuvante» para reduzir o cancro e «ver se pode ser operada».

A associação de luta contra o cancro do intestino, Europacolon, considera esta espera «criminosa», porque «o rastreio reduz em dois terços a probabilidade de se ter um cancro avançado», refere Vítor Neves ao DN.

Segundo Vítor Neves, as normas internacionais determinam que, após um rastreio positivo à pesquisa de sangue oculto nas fezes, a colonoscopia deve ser feita de imediato, acrescenta à Lusa.

Em Portugal há cerca de sete mil casos de cancro do intestino por ano e, em média, morrem 11 pessoas por dia com a doença.