A redução do rendimento das famílias pode levar a um estilo de vida «frugal chique, poderoso e criativo», que aposta num consumo mais responsável e na reutilização de bens, disse à agência Lusa a socióloga Raquel Barbosa Ribeiro.

«Estes comportamentos terão deixado de ser embaraçosos para passar a parecer sensatos e mesmo sinais de bom gosto», comentou a investigadora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, que falava a propósito do Dia Mundial da Poupança, que se assinala nesta quinta-feira.

Os hábitos de poupança dos portugueses mudaram com a recessão económica. Desde o segundo trimestre de 2008 que a taxa de poupança das famílias na zona euro tem aumentado, sendo que em Portugal esta taxa inverteu a tendência descendente dos últimos anos a partir do terceiro trimestre desse ano.

A taxa de poupança das famílias portuguesas tem vindo a aumentar, fixando-se nos 13,6% no segundo trimestre de 2013, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística.

«Esse aumento reflete não só o corte nas despesas das famílias e a diminuição do uso do cartão de crédito, como também a aversão ao risco e a necessidade de precaução numa altura de incerteza», explicou Raquel Ribeiro.

Segundo a investigadora, falar de e praticar hábitos de poupança tornou-se «muito mais aceite e encorajado do que há cinco anos».

A partir de 2007, começou a observar-se comportamentos de consumo mais informados, conscientes e ponderados, que revelam motivações mais racionais.

«A crise poderá estar a ensinar os consumidores a refrear os seus ímpetos gastadores e a tentação emocional do prazer das compras», comentou.

O facto de haver «menos recursos pode levar a um estilo de vida mais frugalmente chique, poderoso e criativo, onde pontuam práticas como o banimento do gasto e das marcas, práticas ambientalmente amigáveis, do-it-yourself [faça você mesmo], serviços partilhados, restauração e reutilização de bens, artigos em segunda mão, contrafação ou poupança».

Os consumidores passaram a estar mais atentos ao que o mercado tem para lhes oferecer, fazendo parte de redes ou grupos exclusivos que recebem ofertas especiais e adquirindo tecnologia que lhes permite encontrar e receber ofertas dinâmicas no ponto de venda ou comparar preços online.

«Com esta tendência tornou-se comum encontrar produtos premium, como roupa de marca, estadias em hotéis e resorts de luxo, viagens ou tecnologia de última geração, a preços low cost», sustentou.

A socióloga explicou que o consumidor não deixou de querer produtos de luxo, quer apenas tê-los a preços baixos. «Esta procura é acompanhada por uma sensação de esperteza e de orgulho denominada dealer-chic

«Se antes a procura por ofertas exclusivas era feita em segredo, hoje em dia garantir a melhor oferta é algo aceite e ambicionado pela maioria dos consumidores em geral e traz consigo uma sensação de empenho e controlo, fonte de status e não de vergonha», argumentou.

Em Portugal, estas tendências têm sido visíveis não só na diminuição da penetração e uso de cartões de crédito, na queda das vendas de retalho, mas também no aumento dos consumidores que utilizam vales de desconto e comparam preços e no crescimento de utilizadores de sites de descontos.