Um, dois, três, quatro. Pode parecer uma marcha militar, mas é uma manifestação da CGTP. Juntam-se aos milhares, mas espaçam-se com uma organização exemplar. Primeiro Função Pública, depois Fenprof, lá ao fundo a Carris, também se vê o Metro, os CTT não faltaram, estão cá todos, ninguém se atropela.

Partem do Largo do Rato, mesmo em frente à sede do PS. Está sol, ao contrário do último protesto da central sindical, e os casacos dos manifestantes revelam-se claramente a mais. Atrás deles, uma faixa preta para Blatter, porque Ronaldo é o melhor do mundo. Outras preocupações.

Os carros com colunas no tejadilho dão um som diferente a uma praça já habitualmente preenchida por trabalhadores. Ouve-se Sérgio Godinho, o «Brilhozinho nos olhos», e o cantor avisa: «Hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a pouco...»

«Um dia de cada vez», diz-se. Agora manifestam-se, mais tarde esperam que o Orçamento do Estado seja travado. Entretanto, a PSP tem de começar a desviar o trânsito. Em hora de ponta, os carros que tentam entrar em Lisboa por esta via não acham muita piada. «Ainda há quem se incomode com isto», desabafa uma senhora. Isto são os protestos. «As pessoas que aqui estão a manifestar-se também não gostam de aqui estar», respondem-lhe ao lado. Tem de ser.

Na paragem do Rato, a sinalização não diz qual é o próximo autocarro. Está escrito «manifestação». É isso mesmo, vai começar a manifestação. «É dever do Parlamento rejeitar o orçamento», cantam. É para isso que cá estão. Bem, parece que nem todos. «O problema do Benfica resolve-se quando o Jesus sair», ouve-se numa conversa. Há assuntos sérios para pôr em dia.

Ana Avoila vai na primeira fila, logo atrás um cartaz onde se lê: «Alerta reformados: oiço bater de Portas e Passos de ladrão». Mais do que explícito. Já na descida para São Bento, a marcha passa por um infantário. As crianças vêm à janela, curiosas, atraídas pelo barulho e pela cor da multidão (vermelha, claro). «Vejam como se um faz que um dia também vão precisar», avisam-lhes.

A Assembleia da República começa a ver-se ao virar da curva. As grades já foram colocadas no dia anterior. «O orçamento é um roubo, quem paga é o povo», continuam a cantar. Ao mesmo tempo, outras duas concentrações chegam: os que se juntaram em Santos e os que partiram da Estrela. Por umas escadas, aparece um grande grupo de coletes fluorescentes. «O estivador voltou», gritam.

Rapidamente se percebe que não vão caber todos em frente à escadaria, onde cerca de uma dúzia de agentes os vigiam. Numa das laterais, muitos nem sequer vêem o palco improvisado onde os estivadores já apelam à palavra de ordem: «Passos, escuta, és um filho da p...». Ouve-se um petardo, a maioria dos sindicalistas não adere à ideia.

Há um caixão que chega, porque «a democracia morreu», e, às 11.40, Arménio Carlos começa a discursar. «O prometido é devido: aqui está uma grande manifestação em frente ao Parlamento», diz o secretário-geral da CGTP, que, meia hora mais tarde, começa a ficar sem voz. Já é uma tradição. Às palavras «PSD», «CDS», «Passos», «Portas» e «Cavaco» segue-se sempre um coro de assobios. Lá dentro, no plenário, não se ouve nada.

«Podem aprovar o orçamento que nós vamos rejeitá-lo todos os dias nos nossos locais de trabalho», avisa Arménio Carlos, antes de anunciar uma nova manifestação, no mesmo local, no dia 26 de novembro. E esta, garante, «ainda vai ser maior».

Mais dois petardos rebentam, há muito barulho de aprovação. A multidão quer mais. Levantam-se dezenas de papéis onde lemos «Governo rua» e «Eleições já». E, de repente, acabou. Os estivadores ficam sozinhos a cantar «sai da toca, Coelho sai da toca». Em três minutos, desaparece a multidão da CGTP. Um, dois, três, quatro. Como uma marcha militar.

Quase uma hora depois, e apesar de novos protestos dentro do plenário, o orçamento foi mesmo aprovado. Ao ir embora, alguns ter-se-ão lembrado da canção de Sérgio Godinho: «Hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a pouco...»