Primeiro foi o painel de Sociologia, agora o painel de Antropologia que critica o número de bolsas atribuídas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e alerta para as consequências irreversíveis no avanço da ciência em Portugal.

Numa carta dirigida a Robert Rowland, presidente da direção da Associação Portuguesa de Antropologia (APA),a ex-presidente da APA, Susana Viegas, critica o processo de selecção da FCT e a diminuição das bolsas cedidas.

A antropóloga denuncia aspetos peculiares na autonomia das áreas disciplinares dos concursos. «Pela primeira vez, (...) juntaram-se áreas disciplinares num mesmo painel de avaliação», a Antropologia ficou associada à Geografia e à Demografia e a Ciência Política ficou com o Direito. «Foi-nos explicado que se tratava apenas da rentabilização de meios», mas depois percebeu-se que «cada painel teria 150 candidaturas e a Antropologia tinha "apenas" 87».

Para convencer a FCT a recuar na decisão, Susana Viegas diz que foi preciso «recorrer a longa argumentação, nomeadamente sublinhando a longa história de consolidação da Antropologia em Portugal e os efeitos desta perca de autonomia em termos de política científica - um argumento que nos diziam ser espúrio, por estar apenas em causa um ato administrativo».

A ex-presidente da APA frisa que esta «situação inédita» é um «ultraje» e irá «produzir efeitos irreversíveis no desenvolvimento da ciência no país». Este ano, dos 3.416 candidatos para bolsas de doutoramento, só 298 foram selecionados. No caso dos pós-doutoramentos, só 233 cientistas receberam bolsas entre 2.305 candidaturas.

No ano passado, a FCT concedeu 1.198 bolsas de doutoramento e 677 de pós-doutoramento, a partir não só da avaliação regular, mas também da audiência prévia e dos recursos apresentados por candidatos que contestaram os resultados iniciais.

«O efeito deste corte fez-se sentir não apenas na diminuição drástica de colegas e de alunos (...) mas também no aumento de injustiças objetivas, já que havia candidaturas de elevadíssima qualidade que iriam ficar definitivamente excluídas», alerta a ex-presidente da APA.

Na carta enviada a Robert Rowland, Susana Viegas ainda denuncia que «os resultados da avaliação foram alterados por funcionários administrativos da FCT» à revelia dos membros do júri.

A FCT justificou, na terça-feira, essas intervenções. «A FCT comunicou aos membros no júri de todos os painéis que tinha realizado um conjunto de alterações para "resolver" "erros" que, alegadamente, os avaliadores terão cometido», refere a antropóloga. Susana Viegas sublinha que esses erros «sempre foram resolvidos (...) em audiência prévia e com a consulta dos avaliadores e nunca unilateralmente e à sua revelia».

O presidente da FCT justificou, hoje, no Parlamento a redução das bolsas como uma «necessidade de diversificar» o apoio à investigação.

Carta Prof Susana Matos Viegas by Verónica Ferreira