A investigadora Luísa Schmidt defendeu esta segunda-feira que problemas ambientais como o surto de ´legionella´ de Vila Franca de Xira resultam da menor exigência da tutela nas monitorizações de poluentes, devido à falta de meios.

«Afinal as questões ambientais são as questões de saúde pública e ficou bem à vista com este caso como a duas coisas estão articuladas, ambiente e saúde, e como pode afetar tanto a nossa qualidade de vida e até causar estes problemas gravíssimos e dramáticos», afirmou a investigadora do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa.

Em resposta ao pedido de comentário sobre o surto da bactéria ´legionella´, que já causou oito mortos, Luísa Schmidt salienou que «são as consequências já da redução de exigência que o Ministério do Ambiente tem revelado porque está com muito menos poderes, está fragmentado, muitas pessoas saíram e, portanto, a monitorização não se está a fazer como deveria e as exigências às indústrias para monitorizar» a emissão de poluentes também não estão a ser como deveriam.

Luísa Schmidt falava à agência Lusa à margem da 1.ª Conferência Anual Rede Mar - Lisboa Azul, que decorre hoje em Lisboa, e reúne investigadores de várias entidades para debater o trabalho científico marinho realizado e as formas de procurar novos produtos, sem afetar a natureza.

A partir de certa dimensão, as indústrias têm de fazer a monitorização de um conjunto de indicadores, incluindo a ´legionella´, e têm de enviar para o Ministério do Ambiente, para a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), muitos dos controlos devem realizar-se «em contínuo, diariamente», como o dióxido de carbono.

Mas, para aquela bactéria, «as análises não são em contínuo, mas trimestrais, tem de haver controlo trimestral sobre a ´legionella´ e isso, pelos vistos, em algumas indústrias tem falhado e o nível de exigência da Agência Portuguesa do Ambiente também», salientou.

Quanto às razões para esta situação, referiu, «a falta de força e a fragilização em que está o Ministério do Ambiente no seu conjunto, depois, a falta de meios», além da «sangria dos técnicos qualificados» das entidades da área ambiental.

Por outro lado, também «é suposto haver ações inspetivas e, portanto, era preciso reforçar o corpo de inspetores», acrescentou a investigadora.

Para Luísa Schmidt, muitas das tarefas do Estado até podem ser reduzidas ou recicladas, mas «há certas funções do Estado que não podem ser substituídas, [como a] fiscalização, monitorização e regulação e, efetivamente, em Portugal isso não se verifica e a área do Ambiente, diretamente ligada à qualidade de vida e à saúde, deveria dar muita força a estas três dimensões».

A questão da saúde pública «é central», para a especialista do ICS.

«Justamente porque estamos em crise, temos de ter cuidado porque o barato sai caro», disse, salientando que, «muitas vezes acontece com estas simplificações de gestão e menor exigência num processo, que neste caso era a monitorização da legionella, para poupar um pouco acabam por criar um enorme gasto público».