«O número de crianças vítimas de assédio sexual na internet pode ser 30 mil ou 300 mil», disse ao TVI24.pt o inspector-chefe Camilo Oliveira, da Directoria do Centro da PJ. O responsável afirmou que o problema «é preocupante», mas que muitas vezes os pais não têm essa noção «porque há um hiato. Os pais não acompanharam a evolução tecnológica, não sabem as potencialidades da internet e dos telemóveis e, por isso, não sabem os riscos que os filhos correm».

«Mais de 90 por cento das crianças e adolescentes entre os 10 e os 15 anos têm acesso à internet. Se 5 por cento forem vítimas de assédio sexual, o número de vítimas chega aos 30 mil», diz Camilo Oliveira, mas o inspector considera que este número «peca por defeito». A questão «é que ninguém tem noção da dimensão do problema. Não há dados reais. Nem em Portugal, nem noutros países», explica.

O inspector esclarece que «alguém que mantém conversas de carácter sexual com um menor está a cometer um crime de abuso sexual. Não é preciso haver contacto físico». «O problema», adianta, «é que muitas vezes, os pais só estão preocupados em evitar que haja um encontro presencial com alguém que os filhos conheceram na internet, e não percebem que, mesmo estando em casa, podem estar a ser vítimas de uma série de crimes». «Em encontros virtuais, os abusadores têm conversas de carácter sexual, enviam fotos deles próprios, pedem fotos às crianças e convencem-nos mesmo a despirem-se e masturbarem-se em frente a uma webcam», explica.

«Os pedófilos têm na internet uma ferramenta fantástica, sem precisarem sequer de arriscar. O mesmo indivíduo consegue contactar milhares de crianças nas redes sociais e depois é só escolher aqueles que derem mais abertura», afirma o inspector, que explica que aquilo que começa como uma conversa, a maior parte das vezes inofensiva, numa sala de chat, passa depois para o e-mail, messenger e para o telemóvel.

Como os pedófilos conseguem seduzir as crianças

O inspector explica que são várias as formas como os pedófilos seduzem as crianças. «Fazem-se passar por miúdos da idade deles, oferecem-lhes presentes, tornam-se confidentes e ouvem os desabafos dos miúdos, e muitas vezes, aproveitam-se das iniciativas dos menores».

Camilo Oliveira conta o exemplo de uma de três menores com 10/11 anos. «Uma delas começou a receber mensagens no telemóvel com carácter sexual, de vários números diferentes. O pai apercebeu-se e contactou os pais das amigas mais próximas, que detectaram mensagens semelhantes nos telemóveis das filhas. Acabaram depois por perceber que tinham sido as próprias crianças a ligar para números de telemóvel aleatórios, iniciavam conversas de carácter sexual e depois desligavam. Os contactados acabavam por lhes ligar de volta. O intuito era receber uma bonificação que a operadora de telemóvel atribuía pelos minutos de conversação. Nem perceberam o risco que corriam».

Outro exemplo são as fotos e vídeos de carácter sexual que os adolescentes colocam na internet, de forma mais ou menos inocente e que acabam depois por servir de chamariz a esses indivíduos. «Basta ver as fotos das redes sociais como o HI5 ou os vídeos do YouTube», diz o inspector.

O que os pais podem fazer?

Por experiência própria, o inspector afirma que as crianças não denunciam estas situações. Os casos conhecidos são uma ínfima parte dos que acontecem e só chegam ao conhecimento das autoridades porque os pais se apercebem.

Então o que podem os pais fazer? O especialista da PJ diz que «proibir o acesso à internet em casa é o pior que podem fazer. Porque eles vão aceder noutros locais e, pelo menos em casa, os pais têm algum controlo». Para Camilo Oliveira, os pais «têm de saber pelo menos o mínimo sobre internet e sobre as novas tecnologias para poderem alertar os filhos para os perigos».