Os doentes com cancro da mama avançado e com níveis de produção de insulina mais elevados, têm um prognóstico “consideravelmente pior” do que os outros doentes com níveis de insulina normais, revela um estudo a ser hoje divulgado.

Pequenas mudanças no estilo de vida dos doentes e um maior conhecimento médico sobre o efeito que a resistência à insulina tem na progressão da doença poderão ajudar a lutar contra o problema, afirma uma das investigadoras, Nicoletta Provinciali, médica oncologista do Hospital Galliera, em Génova.

Os resultados da investigação, que vão ser divulgados hoje durante a 3ª Conferência Internacional de Consenso sobre cancro da Mama Avançado (ABC3), que decorre até dia 7, indicam que os doentes com um cancro de mama que já avançou para outras partes do corpo (metastizado) e que têm níveis de insulina mais altos, sem serem diabéticos, têm um prognóstico pior.

O estudo conclui que o efeito dos níveis mais elevados de insulina nas fases iniciais de cancro da mama já era conhecido, mas que esta é a primeira vez que se demonstra que a resistência à insulina - em que o corpo não usa convenientemente a insulina que produz, o que o leva a produzir em excesso – é “um fator que conduz a um pior prognóstico em doentes com cancro da mama avançado”.

A investigação envolveu 125 doentes com cancro da mama metastizado, não diabéticos, com tumores HER2 negativos, a receber quimioterapia de primeira linha como parte de um ensaio clinico.

Os investigadores verificaram então a relação entre a resistência à insulina e o período de tempo em que o doente viveu sem que a doença progredisse (sobrevivência sem progressão da doença), bem como a sua sobrevivência global (período de tempo que permaneceu vivo).

“Após ter em conta outros fatores que afetam a sobrevivência sem progressão da doença (PFS) e a sobrevivência global, como a idade e o índice de massa corporal (IMC), verificámos que os níveis elevados de insulina são um fator independente de mau prognóstico nos doentes com cancro da mama avançado, refere Nicoletta Provinciali.

Os investigadores mediram os níveis de glucose nos doentes usando um índice que mede os níveis individuais de sensibilidade à insulina e concluíram que 46,95% dos doentes foram classificados como resistentes à insulina, 40,5% tinham peso a mais e 16,37% eram obesos.

Um nível normal de insulina ronda os 2, doentes com um nível de 2,5 ou mais têm resistência à insulina.

As 125 mulheres envolvidas tinham uma média de idades de 60 anos, a PFS foi de cerca de 11,5 meses nas mulheres com um nível menor que 2,5 e de 8,5 meses naquelas que tinham um valor de 2,5 ou superior.

Encontrada esta “clara evidência”, a responsável considera agora ser necessário “encontrar formas de atacar este metabolismo para desenvolver novos tratamentos para estes doentes”.

Umas das características das células cancerígenas é a sua capacidade para crescer rápida e incontrolavelmente, e para resistir à morte programada que ocorre em células não-cancerígenas.

“Sabemos que os fatores de crescimento são críticos para o desenvolvimento e progressão do cancro, e que a insulina é um importante fator de crescimento dos tecidos do nosso corpo, apesar de não sabermos como é que isso afeta diretamente o desenvolvimento das células cancerígenas”, refere a médica.

Os investigadores consideram que uma das formas de lutar contra o problema pode passar por simples mudanças no estilo de vida, como uma melhor dieta, mais exercício e uso de terapêuticas baratas e disponíveis como a metformina (um antidiabético).