O Centro de Informação Antivenenos (CIAV), do INEM, recebeu em 2014 mais de 200 chamadas sobre incidentes com cápsulas de detergente para máquinas de lavar louça e roupa, na maioria envolvendo crianças.

Até terça-feira, foram recebidas, no Centro de Informação Antivenenos, departamento do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), 210 chamadas telefónicas referentes a situações com cápsulas para máquinas de lavar louça e roupa, valor que ultrapassa largamente as 135 chamadas registadas no total do ano passado.

Em declarações à agência Lusa, Fátima Rato, do CIAV, explicou que «a esmagadora maioria» das chamadas envolvem crianças com idades entre os 17 meses e os três anos. Segundo esta médica, em mais 98 por cento dos incidentes há «uma exposição ao produto por via digestiva».

«Na quase totalidade dos casos o que acontece é que as crianças levam as cápsulas à boca e trincam-nas. A quantidade ingerida é mínima, provavelmente porque o produto sabe mal e as crianças naturalmente cospem-no», explicou a especialista.


Até ao momento, não há registo de casos clínicos graves, sendo os vómitos o sintoma mais frequentemente apresentado pelas vítimas, segundo o CIAV. O Centro Antivenenos registou também alguns casos de contacto com os olhos, sobretudo em adultos.

Uma investigação internacional alertou esta semana para o risco que as cápsulas de detergente representam para as crianças mais pequenas, registando um aumento no número de intoxicações, devido aos contacto com as substâncias contidas nas cápsulas.

Segundo o estudo, que foi realizado nos Estados Unidos e publicado na revista médica Pediatrics, ao meterem as cápsulas na boca, as crianças correm o risco de ingerir uma grande quantidade de substâncias químicas concentradas.

A investigação, realizada entre 2012 e 2013, revela que os centros antivenenos dos Estados Unidos registaram 17.230 casos de crianças com menos de seis anos que ingeriram, inalaram ou estiveram expostas aos produtos químicos contidos nestas doses de detergente.

Um total de 769 crianças foram hospitalizadas com intoxicações, em média duas por dia, e uma criança acabou mesmo por morrer.  As crianças com idades entre um e dois anos representam dois terços dos casos. Cerca de metade das crianças (48 por cento) vomitaram após a ingestão do detergente. Tosse, irritação dos olhos, letargia e conjuntivite foram outros sintomas registados.

«As cápsulas são pequenas e coloridas e a uma criança podem parecer guloseimas ou sumo de fruta», adiantou Marcel Casavant, responsável pelo serviço de toxicologia do estado norte-americano do Ohio e coautor do estudo.


Os responsáveis do estudo recomendam, por isso, a instauração de normas de segurança para estes produtos e recomendam também aos pais que optem por detergentes em embalagens tradicionais.

Em abril, a Associação de Defesa do Consumidor (Deco) tinha já alertado para o risco de as crianças confundirem as cápsulas de alguns detergentes com gomas ou rebuçados, por serem «coloridas, suaves ao toque, com um cheiro agradável e vendidas em embalagens atrativas com alusão a alimentos».

A Deco lembrava que a venda de produtos com estas características é ilegal, considerando que a legislação sobre esta matéria é clara: «As embalagens que contenham substâncias perigosas, colocadas à disposição do público, não podem ter uma forma ou uma decoração gráfica suscetíveis de despertarem ou estimularem a curiosidade das crianças ou de induzirem em erro os consumidores, bem como uma apresentação e ou uma denominação similar às usadas em géneros alimentícios, alimentos para animais, medicamentos e cosméticos».