Centenas de pessoas juntaram-se esta noite em frente da Presidência da República, em Lisboa, para mostrar indignação pelo facto de mais de uma centena de pessoas ter morrido este ano nos incêndios.

Apesar da chuva, a adesão à manifestação superou as expetativas dos organizadores, que a convocaram através da rede social FaceBook e que, como disseram à Lusa, apenas quiseram mostrar que as pessoas estão “saturadas e revoltadas” com o que aconteceu.

Centenas de incêndios deflagraram domingo e provocaram pelo menos 41 mortos e 70 feridos. Em junho já tinham morrido mais 64 pessoas também na sequência de incêndios na zona de Pedrógão Grande.

A vigília desta noite, na qual estiveram presentes alguns familiares de vítimas mortais dos incêndios e em que alguns dos presentes empunhavam uma vela acesa, foi convocada em duas páginas diferentes da rede social e os seus organizadores nem se conheciam, como disseram à Lusa.

Paulo Gorjão, professor universitário, foi um deles. À Lusa disse que teve a iniciativa para mostrar pesar por mais de uma centena de mortes, mas também para sensibilizar o Presidente da República “para que faça uso dos poderes constitucionais”, nomeadamente “a palavra”, no sentido “de por um ponto final” ao que aconteceu, que “é uma vergonha”.

Para Paulo Gorjão, a equipa do Ministério da Administração Interna “não tem condições para continuar” e também a Autoridade Nacional de Proteção Civil tem de ser “revista de alto a baixo”.

“em de ser tudo revisto”, disse à Lusa, acrescentando que a ministra da Administração Interna não tem legitimidade para ocupar o cargo.

Perante a grande adesão à vigília, que o surpreendeu, Paulo Gorjão concluiu: “a leitura que faço é que há uma enorme saturação das pessoas com tudo isto, uma insatisfação pela inoperância”.

Nuno Pereira da Cruz, advogado, foi outro dos organizadores da manifestação, que inicialmente nem estava convocada para a Presidência. “Pensei que tínhamos de fazer alguma coisa. Criámos um grupo no FaceBook e em duas horas tínhamos centenas de adesões”, disse à Lusa.

Foi Jorge Santos, enólogo, amigo de Nuno Cruz, quem criou o grupo. “Foi espontâneo, sem qualquer expectativa, o que interessa foi o que senti nesse momento, e a verdade é que muitos estavam a sentir o mesmo que eu”, disse à Lusa.

Nuno Cruz tem também uma leitura da grande adesão à iniciativa: “mostra que não nos resignamos, que não estamos inertes e que exigimos mais e melhor dos decisores. É demasiado grave para que não se tomem iniciativas”.

Ainda que o Presidente da República estivesse fora, se fosse possível, disse Nuno Cruz, diria a Marcelo Rebelo de Sousa que “é tempo de agir e de utilizar o capital político que tem”.

E Paulo Gorjão, lembrando que não foi pedida qualquer audiência ao Presidente, dir-lhe-ia, como explicou à Lusa, que os portugueses estão fartos “de beijos, abraços e selfies”.

A ideia estava escrita também num cartaz de um dos manifestantes, “chega de afetos”, com outros a dizer frases como “governo do 3.º mundo”, “não sou de esquerda, não sou de direita, sou por um Estado integro e com valores”, ou ainda “Vai de férias MAI”, numa referência à ministra da Administração Interna.

Os participantes na vigília haveriam de gritar também a frase “Vai de férias” e “Demissão”, depois de entoarem o hino nacional.