A GNR tem no terreno uma “teia de informação” que lhe permite manter uma vigilância apertada de muitos incendiários. As patrulhas da Guarda têm ainda, em alguns distritos, o registo temporal e geográfico das ocorrências. Ferramentas que permitem às autoridades chegar muitas vezes antes do começo das chamas. Ainda assim, 2017 é já um dos piores anos em vários indicadores. Os primeiros dados mostram-nos que 17% dos incêndios têm mão criminosa.

Com uma implementação em “95%” do território nacional, a GNR está sobretudo nas zonas rurais. É aqui que deflagram a grande maioria dos fogos e é aqui que os militares tentam durante todo o ano prevenir uma época de incêndios catastrófica. O combate aos incêndios faz-se muitas vezes a bater de porta em porta e com a ajuda das populações.

“A GNR tem uma teia de informações com vários suspeitos referenciados. Temos o conhecimento das localidades pequenas e de quem no terreno pode causar ignições. Se um suspeito referenciado sair de casa para regar uma cultura, nós sabemos, explicou à TVI24 o major Ricardo Alves, do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR, que garante ainda que a vigilância dos suspeitos de fogo posto acontece quer de verão, quer de inverno.

“O que acontece é que no inverno, o número de ocorrências é muito inferior ao verão. Nesta altura, as imagens que passam na comunicação social levam a um grande aumento do número de incêndios”, explicou.

Da “teia de informações” surge a vigilância de suspeitos referenciados. Destes fazem parte, quer incendiários que já foram detidos, quer “pessoas com grau elevado de probabilidade de praticarem estes crimes”, explica. Casos de pessoas sobre quem existem suspeitas, mas até ao momento não houve ainda quer um flagrante delito, quer indícios probatórios que possam levar à detenção por parte da Polícia Judiciária.

A GNR tem ainda em conta “ocupações de risco” como a pastorícia. Uma atividade com suspeitos que ateiam as chamas quer para a “renovação de pastagens, para que ovelhas e cabras se possam alimentar, quer para queimadas”. 

Este domingo, a GNR identificou mais um suspeito de 45 anos de um crime de incêndio florestal, em Cabeceiras de Basto e foi precisamente a população a alertar para o facto do homem se preparar para atear um fogo tal como já tinha acontecido em anos anteriores.

A GNR tem mesmo um registo temporal e geográfico, em alguns distritos, nomeadamente em Braga, dada a importância da mancha florestal do Parque Nacional Peneda-Gêres.

“Temos o registo das semanas e até das horas em que deflagraram incêndios em determinados locais”, adianta a GNR, explicando que deste modo é possível antecipar quando alguém se prepara para atear um novo foco.

“Há até o exemplo de uma imagem no Google Maps, tirada talvez há uns quatro anos, onde se vê um incêndio, e este ano já ocorreu um novo fogo no mesmo local”, exemplifica.

Apesar do trabalho no terreno, no que toca a incêndios, 2017 é já o ano mais “severo” dos últimos quinze. Segundo a Proteção Civil, este ano existem mais 3500 ocorrências do que no ano passado, mais 48 mil hectares de área ardida e o dobro dos detidos, tendo em conta o mesmo período de 2016.

Com as chamas ainda no terreno, as causas para os números mais dramáticos de 2017 estão ainda em estudo. Mas ao olharmos para os dados preliminares até 20 de agosto, percebermos que a negligência, tal como em anos anteriores, continua a ser a principal causa dos fogos.

Segundo os dados a que a TVI teve acesso, até agora, em 2017, 17% dos incêndios tiveram origem em mão criminosa, 40% em negligência, 33% são de origem desconhecida, 9% correspondem a reacendimentos e 1% são devido a causas naturais.