O vice-presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, Sérgio Carvalho, defende que o modelo de formação dos bombeiros deve ser alterado para evitar mais mortes de profissionais no combate aos incêndios.

Em declarações à Lusa, Sérgio Carvalho, também presidente do Sindicato Nacional de Bombeiros Profissionais, começou por lamentar apenas ter tido conhecimento pela comunicação social de «algumas conclusões avulsas» do relatório pedido pelo ministério da Administração Interna.

«As conclusões que vêm a lume vêm descontextualizadas. Não conhecemos o todo do relatório, não sabemos o porquê das afirmações que lá vêm e algumas deixam-nos um bocado estupefactos», nomeadamente as da falta de formação dos bombeiros, adiantou.

Têm-se «visto continuamente na comunicação social» o presidente da Escola Nacional de Bombeiros e o da Liga dos Bombeiros Portugueses a afirmarem que «os bombeiros têm centenas de horas de formação, sejam voluntários ou profissionais».

«Mas, se os relatórios estão a dizer que nós estamos a morrer nas frentes de combate nos incêndios por falta de formação, tem de se alterar o paradigma da formação», defendeu.

Se o problema não é os bombeiros terem formação a mais, o problema é saber se a formação que estão a ter é adequada para a atividade que estão a prestar, observou.

«Isto tem de ser revisto rapidamente e, possivelmente, até alterar estratégias de combate» aos incêndios e os modelos de formação para não voltarem a acontecer mortes nos fogos.

O relatório do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais alerta também para falhas na qualidade do equipamento de proteção individual dos combatentes.

Sobre este alerta, Sérgio Carvalho afirmou que «os bombeiros estão muito mal equipados».

«Os chefes de topo que estão a liderar todas operações não veem que os homens estão mal equipados? Quem é que os mandou para a frente de fogo? Foi o bombeiro que comprou aquelas botas e aquela farda para ir para a frente de fogo? Também é culpado disso?», questionou.

«Então onde é que andam os culpados neste país? Isto tem que ser alterado», sublinhou Sérgio Carvalho, adiantando que «há anos» que o sindicato anda a alertar para esta situação.

Para o responsável, é preciso «avaliar muito» bem se os bombeiros estão bem preparados para aguentar duas horas na frente de fogo e se têm «instrução diária».

«Todos os anos morrem jovens nos incêndios, há falhas no teatro das operações, que estão identificadas, mas depois não há coragem política para alterar tudo isto», insistiu.

«Tem de haver coragem política para alterar a legislação no setor dos bombeiros e apostar em força em equipas profissionais de primeira intervenção altamente qualificadas, coadjuvadas com estruturas de bombeiros voluntários e não o contrário, porque senão a hierarquia e a organização no teatro de operações é muito complicada», concluiu.