Durante o incêndio em Pedrógão Grande pelo menos dez pessoas, em cinco casos graves, não tiveram ajuda quando estavam cercadas pelas chamas. A falta de socorro a vítimas, que pediram ajuda em vão, teve origem nas falhas dos sistemas de comunicações, nomeadamente o SIRESP, revela a “fita do tempo” da Proteção Civil, divulgada, esta terça-feira, por alguns órgãos de comunicação social.

Segundo o documento disponibilizado pela Rádio Renascença, e que pode consultar aqui, o incêndio em Pedrógão Grande começou às 14:43 de sábado, 17 de junho, mas só ao final da tarde é que as chamas começaram verdadeiramente a ameaçar os populares.

O primeiro caso grave registou-se às 19;45 quando o 112 informa que três vítimas, do Porto, estão cercadas numa casa devoluta, em Casalinho, de onde não conseguem sair. No documento, lê-se que não foi possível contactar o Posto de Comando, nem o 2.º Comandante Operacional Distrital de Operações de Socorro. Na mesma altura, o Posto de Comando instalado em Pedrógão Grande informa que ficou sem sinal de baixa frequência.

Cinco minutos depois, o pedido de ajuda vem de um pai e um filho, em Troviscais, que solicitam socorro urgente. Neste caso, o CDOS de Coimbra também não conseguiu informar o Posto de Comando e do 2.º comandante. 

Cerca de uma hora depois, chega a primeira confirmação de que o SIRESP não estava a funcionar como devido. O Centro Nacional de Operações de Socorro (CNOS) solicita ao chefe da Divisão de Informática e Comunicações da Protecção Civil que reposicione as “Antenas SIRESP na zona de Pedrógão Grande e Figueiró dos Vinhos”. Já pelas 21:22, os bombeiros decidem começar a contactar pelos antigos meios de comunicação da sua rede, dando indicação das frequências que deveriam ser usadas. 

O terceiro caso grave foi registado pelas 21:30 quando em Ramalho, Vila Facaia, é reportado que está uma casa a arder e há já uma pessoa queimada. Mais uma vez não foi possível contactar quer os bombeiros, quer o Posto de Comando do incêndio. Sete minutos depois, há nova tentativa de contacto sem sucesso.

21:47 – Novo caso grave. Desta vez, é um idoso de 75 anos, com dificuldades em respirar, que tem já a casa a arder por baixo. O furo da quinta não tem água por estar avariado e a vítima está sozinha. A informação não chegou ao Posto de Comando, de onde poderiam ter saído meios para o auxílio para Sarzedas do Vasco.

O último caso grave tem registo de entrada na “fita do tempo” às 22:45 quando um homem pede socorro para a esposa que se refugiou dentro da viatura, depois da casa já ter ardido. Mais uma vez a informação não chegou ao Posto de Comando e ajuda não chegou.

Pelas 23:15, chega a informação de que as comunicações não estão a ser possíveis, nem através de telemóveis. Pela 1:00 da manhã, o posto de comando teve que sair de Pedrógão para Avelar devido a problemas de comunicação. As quebras do sistema são relatadas até às 3:30 da madrugada, de dia 19.

A “estrada da morte”, a Nacional 236-1, nunca é referida diretamente. A primeira referência surge às 1:02 da madrugada de domingo, quando é solicitado “apoio para o levantamento de vítimas mortais que se encontram na estrada impossibilitando a circulação dos meios de combate”. Mais tarde foi divulgado o trágico balanço de 47 mortos na Nacional, 30 dentro das viaturas e 17 na estrada.

A “fita do tempo” das comunicações foi registadas pela Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC) mostra que as comunicações fracassaram na ajuda a vítimas graves do incêndio. Não se sabe ainda quantas destas vítimas que não foram socorridas acabaram por morrer.

Esta “fita do tempo” resulta do Sistema de Apoio à Decisão Operacional (SADO) da ANPC, uma espécie de “caixa negra” que permite registar, entre outros parâmetros, a sequência ordenada dos principais acontecimentos e decisões operacionais. Estes registos foram disponibilizados ao primeiro-ministro no dia 23, adianta o jornal Público que também revela o documento.

As falhas no SIRESP foram admitidas por dois comandantes operacionais da Protecção Civil nos primeiros balanços dos incêndios, no entanto, foram sempre desvalorizadas. Na passada quarta-feira, o responsável pelas operações em Pedrógão Grande chegou a dizer o contrário do que agora é confirmado, lembra o Público. Aos jornalistas, o comandante Vaz Pinto garantiu que nenhuma falha tinha sido superior a um minuto.