Uma catástrofe com a dimensão do incêndio em Pedrógão Grande contribuirá para perturbações psicológicas, mas a maioria dos afetados conseguirá regularizar a vida, segundo uma especialista que desde sábado participou em algumas das 863 intervenções psicológicas feitas no local.

Sónia Cunha, responsável pelo Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise do INEM, tem apoiado as populações afetadas, em articulação com outras entidades como a Cruz Vermelha Portuguesa, a PSP, a Polícia Marítima, o Exército e o Instituto de Segurança Social.

Os “primeiros socorros psicológicos” visaram, inicialmente, conseguir a estabilização emocional de quem foi confrontado com um incidente desta dimensão, considerada uma catástrofe pelas perdas que causou e o impacto comunitário que teve.

Numa fase inicial foram avaliadas as primeiras necessidades, entre as quais a estabilização emocional dos afetados”, disse Sónia Cunha à agência Lusa.

O objetivo dos psicólogos nestas situações é mostrar às pessoas que as suas reações são normais e as esperadas numa situação tão inesperada.

O que fazemos é ajudar a aceitar, a normalizar e isso mesmo transmitimos às pessoas. Não pedimos para que esqueçam o sucedido – nem isso seria possível – mas que se trata de algo que foi vivido e que faz parte das vivências, tal como muitas outras."

As pessoas que necessitam de intervenção psicológica pertenciam sobretudo a dois grupos: os que perderam familiares, vidas e bens, e as pessoas com manifestações psicológicas que denotavam evolução para perturbação, com reações mais desajustadas.

A maior parte dos pedidos de ajuda foi de pessoas que perderam familiares, mas também de pessoas com patologia prévia e que nestas situações é agudizada."

Desde o primeiro dia em que este apoio psicológico começou a ser prestado que os profissionais trabalham para promover a pro-atividade dos intervencionados.

“Fazemos por promover a funcionalidade e o equilíbrio entre as emoções e o racionamento (sentir e pensar)”, disse.

A maioria das pessoas tem-se esforçado por repor a sua funcionalidade e normalidade, retomando as tarefas e enviando as crianças para a escola, o que é “fundamental”.

“É muito importante a normalização das rotinas”, explicou, referindo que os psicólogos tentam, nesta fase, afastar-se fisicamente.

O próximo apoio passa por encaminhar os casos que necessitem de intervenção contínua, até porque “há uma percentagem que vai desenvolver perturbações relacionadas com depressões, stress, adições e são estes os casos que serão assinalados para serem seguidos”, disse.

A maioria, contudo, “vai regularizar e repor a sua normalidade”.