Vítor Cotovio, psiquiatra, esteve nas manhãs da TVI24 para explicar como se pode ajudar as vítimas do incêndio de Pedrógão Grande a ultrapassar esta tragédia, em termos emocionais. 

Cotovio começou por explicar que as pessoas estão efetivamente a viver um processo de luto, seja porque perderam familiares ou amigos ou porque perderam condições fundamentais para a sua subsistência, como a casa, o trabalho, terras ou animais.

Perder uma casa é uma coisa identitária, porque estamos muito ligados à nossa casa e perder pessoas é uma coisa catastrófica dentro de nós”, refere o psiquiatra.

É essencial passar-se pelo processo de luto. Trata-se de uma reação emocional, que permite reorganizar a perda. O médico alerta que, se o luto não for feito e se não houver uma intervenção e ajuda precoce, os sintomas podem transformar-se em patologias.

Aqui, há uma situação particular. Quando estamos à espera que alguém morra, é uma morte esperada, como um cancro, por exemplo. De alguma forma fizemos um luto antecipado, fizemos uma preparação. É completamente diferente de uma morte inesperada. Mesmo dentro das mortes inesperadas e repentinas, há aquelas que são concebíveis, como um enfarte. Aqui são mortes inconcebíveis”, acrescenta.

Por isso, Vítor Cotovio explica que é preciso muita sensatez e sensibilidade na abordagem e na forma como o assunto é tratado.

Academicamente, um processo de luto é composto por várias fases: a fase da negação, a fase da revolta e raiva, a fase da negociação (em que se pensa como as coisas podiam ter sido diferentes) e, por fim, a fase da aceitação. O psiquiatra explica que não significa que o processo decorra sempre assim, mas, em termos gerais, começa numa fase de negação e acaba na aceitação. Ou seja, vai da desorganização até à reorganização.

Agora, estão a ser apuradas responsabilidades e, para o psiquiatra, é importante que isso seja feito, mas com “sensatez, lucidez e discernimento”, para que não se potencie um “bote expiatório cego”. O bote expiatório pode acentuar o sentimento de revolta.

É importante que se faça justiça, mas que não haja propriamente vingança. A vingança não faz parte do processo de luto. O luto é uma coisa interna, não é uma coisa contra ninguém. Se quem está em sofrimento desloca o seu processo de luto para o castigo e para a vingança, não faz este processo interno, que precisa de tempo”, defende Vítor Cotovio.

O psiquiatra explica que o apoio médico é essencial nestas situações. É necessário perceber-se como é que cada pessoa já lidou com outras situações semelhantes e que recursos tem para lidar e ultrapassar situações de perda. As pessoas podem criar um stress pós-traumático, que pode durar anos. Portanto, cada pessoa necessita de um apoio personalizado. Vítor Cotovio lamenta que os meios para ajudar, de forma individual, cada vítima, sejam poucos.

Mesmo com falta de recursos, Vítor Cotovio refere que é fundamental que as pessoas percebam que não estão abandonadas e que são ajudadas.

Nós vivemos em comunidade e precisamos de sentir que pertencemos a alguma coisa e que não nos abandonam. Para além das vítimas terem perdido pessoas ou condições, precisam, neste momento, de sentir que se preocupam com elas e que se metem no lugar delas”, acrescenta.

Para Vítor Cotovio, para ajudar as vítimas é essencial respeitar “a aproximação e o afastamento”. Ou seja, é necessário estar presente e disponível, mas sem se ser evasivo e intrusivo.

É preciso respeitar o tempo e a dor de cada um, que varia. Temos que tentar perceber o que está a acontecer com cada um. Temos que estar ao lado, mas não a invadir. Nestas alturas, todos nós damos muitos palpites (“devia ser assim”, “é suposto reagir assim”, “tem de ser assim”). Cuidado que isto é altamente agressivo e altamente ofensivo e não respeita minimamente a sensibilidade de quem está a vivenciar uma situação com esta dimensão”, explica.

Por fim, o psiquiatra alerta para a necessidade de não se reagir apenas “reativamente”, ou seja, depois das coisas aconteceram. Defende que a solidariedade que está a surgir é fundamental, mas que precisamos todos, e não só as instâncias públicas, de refletir acerca daquilo que podemos fazer de forma antecipada.

Respondemos reativamente, em termos solidários, mas, se calhar, se tivermos uma mata na nossa terra não respondemos antecipadamente e deixamos as coisas mal tratadas e à beira da estrada”, evidencia Vítor Cotovio.