O bastonário da Ordem dos Psicólogos, Francisco Miranda Rodrigues, esteve na TVI24 a falar sobre o papel dos psicólogos em situações de crise e catástrofe como o recente incêndio em Pedrógão Grande, que causou, pelo menos, 64 vítimas mortais e 160 feridos. Foi no decorrer deste incidente que se ativou, pela primeira vez, uma bolsa de psicólogos destinada a situações de emergência.

Nesta tragédia, várias pessoas perderam os familiares e todos os seus bens. É nestes casos que é necessária ajuda psicológica.

Foi dada uma resposta imediata e vários psicólogos encontram-se no terreno para ajudar as vítimas. Para Francisco Miranda Rodrigues, esta ajuda inicial, que deve ser dada nas primeiras horas após o acontecimento, “é essencial".

Nestas catástrofes, os chamados primeiros socorros psicológicos e intervenção em crise e catástrofe, feitos pelos psicólogos, permitem não só fazer uma estabilização de todas as pessoas que, de formas diferentes, acabam por ser vítimas (…) como permitem a prevenção de distúrbios psicopatológicos posteriormente, como ainda o restabelecimento das pessoas para que mais rapidamente possível e, enfim, dentro daquilo que as circunstâncias o permitirem, possam vir a normalizar as suas vidas”.

O incêndio que atingiu várias regiões do distrito de Leiria deixou feridas emocionais e é necessária ajuda para as cicatrizar. Mas esta ajuda varia de pessoa para pessoa. O bastonário explicou que “há pessoas que não demonstram sinais nenhuns evidentes, há pessoas que demonstram sinais que são adaptativos e que, portanto, se mostram resilientes face ao que se está a passar, há pessoas que têm respostas que, claramente, são menos adaptadas e, portanto, beneficiam ainda mais deste apoio imediato”.

Quando os psicólogos chegam ao local, também já encontram pessoas que reagem “de uma forma mais perturbada, a necessitarem de outro tipo de apoios”.

Saber como ajudar as vítimas depende do “próprio histórico” das pessoas em causa, das suas “características pessoais, das competências que cada um tem, dos chamados fatores protetores que nós temos ou não em menor escala e que podem permitir que, nestas situações, possamos ter melhores ou piores reações”.

Estes casos de crise e catástrofe são, de acordo com o psicólogo, “sempre cenários onde nem tudo sem consegue e nem tudo se pode prever, mas onde estas intervenções [de ajuda psicológica] permitem reduzir muito os danos”, permitindo também “o melhor restabelecimento das pessoas e, portanto, uma redução do sofrimento que está associado”.

Bolsa de psicólogos foi ativada pela primeira vez

Pela primeira vez, foi ativada uma bolsa de profissionais da área para situações de emergência e catástrofe. Francisco Miranda Rodrigues esclareceu que “compete às autoridades” ativar este tipo de bolsas. São elas que avaliam as situações no terreno de forma a perceber se há ou não a necessidade deste tipo de apoio.

O projeto que levou à criação desta bolsa já tem três anos.

“Em Portugal, costuma dizer-se que não se trabalha com tempo estas coisas. Mas, na verdade, nós fomos desafiados pela Autoridade Nacional de Proteção Civil a preparar uma bolsa destas, já há três anos. Era um trabalho que era demorado, porque tínhamos que formar um conjunto muito alargado de profissionais que tivesse uma presença distribuída por todo o território nacional e formação específica para a intervenção em crise e catástrofe”.

Depois de passar o primeiro impacto deste tipo de acidentes, há pessoas que precisam de ajuda continuada. Nesses casos, pode haver “referenciação para o Serviço Nacional de Saúde”. As pessoas mais afetadas “deverão ter uma monotorização já pelo Serviço Nacional de Saúde, à posteriori”. No entanto, há dificuldades:

Os recursos de psicólogos no território nacional são muito reduzidos ao nível do Serviço Nacional de Saúde, e não que haja falta de psicólogos e psicólogas em termos de formação (…) Parece haver muita dificuldade em perceber qual é a necessidade de termos os psicólogos ao serviço das populações em permanência. (...) Tememos que, depois de se apagarem os holofotes e depois dos profissionais que estão agora no terreno recolherem, de esta situação estar mais ou menos sanada no imediato, nos esqueçamos que o trabalho tem de continuar e que, se não continuar, continuamos a ter danos” que se podem tornar irreversíveis, “por não haver um apoio de continuidade que é imprescindível para que este trabalho que foi agora iniciado possa ter o melhor dos efeitos”.       

 

Em Pedrógão Grande e nos arredores, já estiveram cerca de 130 psicólogos. Francisco Miranda Rodrigues explicou que “várias equipas de várias organizações diferentes, em níveis diferentes de atuação, colocaram psicólogos no terreno, sempre por ativação e com a coordenação das autoridades que têm responsabilidade nesta matéria”. O pedido de ativação da bolsa de psicólogos foi feito, pela primeira vez, pela Autoridade Nacional de Proteção Civil.