As mulheres são penalizadas quando optam por tratar dos filhos em detrimento da carreira profissional, porque faltam “infraestruturas de qualidade” para acolher as crianças, denuncia a UMAR. 

Em declarações à agência Lusa, a propósito do relatório da OCDE que revela que as mães portuguesas que param as carreiras têm as pensões mais baixas entre as mulheres dos 34 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, a responsável da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) Manuela Tavares defendeu a necessidade de uma melhor articulação entre a vida familiar e profissional, dando condições às mulheres e homens para deixarem os filhos em “infraestruturas de qualidade”.

“Penso que as principais causas estão no facto de não termos infraestruturas suficientes, capazes e a preços acessíveis para que [as mulheres] possam continuar a exercer a sua atividade profissional e as crianças poderem ser bem tratadas”, sustentou.


São necessárias infraestruturas “com cuidados ajustados à idade das crianças, de forma a que mulheres e homens – já que estas tarefas não competem só às mulheres - possam a ter algum descanso e confiança nessas infraestruturas e dar continuidade às suas carreiras”, acrescentou.

A responsável da UMAR classificou a falta de confiança e de infraestruturas como a questão central que leva as mulheres a relegar as carreiras profissionais para segundo plano em detrimento dos filhos, por considerarem que o acompanhamento das crianças “poderá ser uma mais-valia”.

Manuela Tavares disse ser fundamental a articulação entre a vida profissional e familiar, lembrando que é esta é mesmo uma das orientações mais importantes atualmente na Europa, embora sublinhando que tudo tem a ver com o sistema económico.

“Hoje, a tendência é para que as pessoas trabalhem mais horas por dia. As funções são de tal forma exigentes que fazem com que não tenham vida privada. É lógico que representa uma sobrecarga muito grande. Tem de estar interligado numa outra filosofia, numa outra forma de ver o trabalho e de ver a vida das pessoas, estas não são escravas do trabalho”, sublinhou à Lusa.

Manuela Tavares questionou ainda o porquê de estar instituído na sociedade que é a mulher a interromper a carreira e não o homem, lembrando que a partilha de responsabilidades entre homens e mulheres na família continua a ser “muito insuficiente”.

Além disso, apontou, quando se trata de carreiras profissionais, os homens “não prescindem” delas para tratar dos filhos.

“Nesta sociedade, as tarefas do cuidado continuam a estar nas mãos das mulheres e não dos homens. Uma sociedade que depois não oferece condições para que as crianças tenham o cuidado devido, é normal que algumas mulheres (…) decidam interromper as carreiras para tratar dos filhos”, explicou.

A responsável justificou desta forma que as mulheres sejam “bastante penalizadas”, até porque quando interrompem uma carreira e regressam depois à esfera profissional, outras pessoas ascenderam ao seu lugar, ficando prejudicadas também com reflexos nos salários.

De acordo com relatório Panorama das Pensões 2015 da OCDE, divulgado terça-feira, e segundo o jornal Público, as mulheres portuguesas que ficam em casa para tratar dos filhos, interrompendo a vida ativa por dez anos, vão ter uma perda de 21% na sua pensão, quase o dobro da média da OCEDE.

A OCDE conclui que a interrupção dos descontos para a Segurança Social “retira uma parte substancial aos rendimentos das pensões”, especialmente se o período se prolonga no tempo.