O administrador do BCP Iglésias Soares negou esta quarta-feira em tribunal que, em março de 2015, tenha avisado o ex-procurador Orlando Figueira de que estava sob investigação do Ministério Público, contradizendo o arguido.

Nunca. É totalmente falso que tenha dado essa informação”, disse a testemunha, contradizendo Orlando Figueira, um dos quatro arguidos na Operação Fizz, que afirmou ter tido conhecimento pelo administrador do BCP, a 27 de março de 2015, de que estava a ser investigado por fraude fiscal e branqueamento de capitais.

Iglésias Soares admitiu, contudo, corroborando o arguido, de que foi Orlando Figueira que lhe contou ter problemas com um contrato de trabalho e que ele falou do assunto a Carlos Silva, presidente do Banco Privado de Angola e vice-presidente do Millennium BCP.

Porém, acrescentou, não percebeu de que contrato de trabalho se tratava e a que empresa estava ligado.

Dois meses mais tarde, contou a testemunha, Carlos Silva pediu-lhe para dizer a Orlando Figueira para ir falar com um advogado e sugeriu Daniel Proença de Carvalho.

Disse a Orlando Figueira que Carlos Silva tinha dito para falar com um advogado e sugeriu Daniel Proença de Carvalho. Se falou ou não, não sei porque eram assuntos pessoais dele e não do BCP”, afirmou.

Sobre a passagem de Orlando Figueira do “compliance” do BCP para o Activo Bank, o vogal do conselho de administração explicou que foi Miguel Maia, também do conselho de administração, que lhe disse ter “fortes suspeitas” que o ex-procurador “passava informações sigilosas”.

A decisão de Miguel Maia, contou, foi transferir Orlando Figueira do BCP para o Activo Bank sem lhe “contar os verdadeiros motivos” já que “não tinha provas evidentes” e porque o banco estava à venda, facto que não se consumou.

Várias vezes foi perguntado no julgamento por que é que o contrato de prestação de serviços de Orlando não foi denunciado dadas as suspeitas, mas a testemunha disse desconhecer o motivo.

Quem pode responder é o Miguel Maia”, disse Iglésias Soares.

Figueira acusa

Desde o início do julgamento que Orlando Figueira, acusado de corrupção, branqueamento, falsidade e violação do segredo de justiça, apontou o dedo ao presidente do BPA, Carlos Silva, e a Daniel Proença de Carvalho, dizendo que ambos deviam ter sido constituídos arguidos.

Segundo Orlando Figueira, os contratos de trabalho que assinou com a Primagest foram para trabalhar em Angola para o BPA e que Carlos Silva não cumpriu os compromissos e que, por intermédio de Proença de Carvalho, lhe tinha tentado comprar o silêncio com a rescisão amigável do contrato de trabalho e respetivo pagamento de impostos.

No final da 17.ª sessão do julgamento da Operação Fizz os advogados Rui Patricio, da defesa de Armindo Pires, e Carla Marinho, de Orlando Figueira, mostraram-se satisfeitos com o depoimento da testemunho.

Este depoimento foi fundamental para confirmar os factos que foram alegados por Orlando Figueira. Veio a confirmar na integra os pontos de defesa, ou seja, que havia um contrato, pagamentos devido a esse contrato e que foi intermediário de Carlos Silva”, disse Carla Marinho.

A Operação Fizz, que tem ainda como arguidos o engenheiro Armindo Pires e o advogado Paulo Blanco, assenta na acusação de que Manuel Vicente corrompeu Orlando Figueira, com o pagamento de 760 mil euros, para que este arquivasse dois inquéritos, um deles o caso da empresa ‘Portmill’, relacionado com a aquisição de um imóvel de luxo no Estoril.

Manuel Vicente foi acusado de corrupção ativa, mas o seu processo foi separado da ‘Operação Fizz’ no início do julgamento, numa altura de tensão nas relações diplomáticas entre Angola e Portugal e vários apelos públicos ao desanuviamento das mesmas.