Piedade Pires, de 77 anos, residente no concelho de Porto de Mós, foi burlada uma vez na vida. Foi há coisa «de ano e tal», disse, sem conseguir precisar a data, escreve a Lusa.

Ainda desconfiou do homem que lhe entrou pela casa, mas, sozinha na habitação, numa aldeia com poucos habitantes, pouco lhe restava que não entregar os 200 euros a um pretenso familiar de um vizinho para fechar um qualquer negócio.

Sozinha e com a porta aberta

O crime serviu-lhe de emenda, mas talvez não totalmente. Passou a ter pouco dinheiro em casa, mas a porta está «praticamente aberta», confessou.

«Estou o dia inteiro dentro de casa sozinha. Pelo menos, faça calor, tenho a porta aberta», admitiu Piedade Pires, para logo acrescentar que ainda existe outra porta aberta.

«Se for preciso para fugir», justificou a septuagenária que marcou presença numa das acções de sensibilização sobre contos do vigário promovida pela PSP de Alcobaça.

É fácil ser ludibriado

Na assistência, dezenas de idosos do concelho viram histórias que já lhes bateram à porta. Às suas ou às dos vizinhos.

No palco, 16 alunos do grupo de teatro da Escola Secundária Inês de Castro, também de Alcobaça, que aceitou o convite da PSP para mostrar, com humor, como é muito fácil ser ludibriado.

O casal Costa foi o primeiro a ser aliciado, numa lengalenga que começou num telefonema a informar Amélia, a dona de casa, de que ganhou um prémio.

Um micro-ondas «mais rápido que outros»

Levou o prémio, um peluche «Winnie the pooh», mas também um colchão que faz massagens, tem música ambiente e aquece, um frigorífico com televisão e uma máquina de lavar que «segura bem a louça».

Electrodomésticos que adquiriram intervalados por outros prémios, como a máquina de café de cor à escolha do freguês, o aspirador que «aspira sozinho» e o micro-ondas «mais rápido que outros».

No final, o casal assinou um contrato, mas ia morrendo de susto quando a cópia do mesmo chegou à morada de família.

«Os contos do vigário»

Um agente da PSP falou, agora de forma mais séria, a alertar para os casos mais frequentes deste tipo de burlas. O público não poupou palmas, que repetiu aos actores do segundo momento: a história do falso técnico.

Neste caso, foram dois, bem apresentados, que disseram ser da Segurança Social e prometeram, através do programa «Super idoso», mais 25 por cento do valor da reforma a duas idosas.

Os olhos das vítimas brilharam com tamanha oferta e logo se predispuseram a dar todas as informações e mais algumas aos burlões. Resultado: ficaram sem dinheiro, sem ouro e outros objectos.

«Os contos do vigário» não terminam sem o olhar atento de um carteirista numa feira onde havia muito movimento e alguma confusão, e o embuste de um falsa boa samaritana, que se apresentou a um idoso como filha de um vizinho.

A jovem bem-falante pediu ao idoso para entregar o donativo de um tio à misericórdia local, informando que receberia 200 euros da dita instituição para as despesas. Adiantamento que o idoso entregou à jovem e, escusado será dizer, nunca mais o viu.

«Teatralizar as situações»

No final da sessão teatral, Francisco Antunes, 68 anos, de Alcobaça, afirmou que a iniciativa «ajuda as pessoas mais velhas», acrescentando que «era uma coisa que deviam dar mais vezes».

Embora sem garantir a sua repetição, o comandante da esquadra da PSP de Alcobaça, António Caroça, explicou à agência Lusa o objectivo da iniciativa: «Para que as coisas sejam mais directas ou fiquem mais no espírito das pessoas, optámos por teatralizar as situações».

O responsável disse acreditar que da arte do palco resulta «um melhor entendimento» para os idosos, opinião partilhada pelo coordenador do grupo de teatro da escola de Alcobaça, Manuel Parrinha.

«A mensagem pelo teatro é muito mais eficaz que palavras e folhetos. A monotonia do discurso já devia estar ultrapassada», declarou o docente.