Um homem de 70 anos negou esta quarta-feira no tribunal de Aveiro ter provocado deliberadamente um acidente, no IC2, na Mealhada, para matar um casal vizinho que viajava num quadriciclo, na sequência de um conflito com as vítimas.

O acidente ocorreu na manhã do dia 20 de dezembro de 2014, quando o carro conduzido pelo arguido colidiu frontalmente com a viatura das vítimas, que seguia em sentido contrário, provocando a morte do elemento masculino.

Durante a primeira sessão do julgamento, o arguido, que está acusado pelo Ministério Público (MP) de dois crimes de homicídio qualificado, um dos quais na forma tentada, disse não se lembrar do acidente.

"Não sei explicar o que aconteceu. Sei que o acidente aconteceu pelo que me disseram. Só me lembro dos bombeiros a tirarem-me do carro", afirmou o arguido, explicando que pouco antes do acidente tinha deixado a mulher no centro de dia e regressava a casa para ir buscar umas receitas para comprar medicamentos.


Perante o coletivo de juízes, o septuagenário admitiu ainda ter um "desentendimento" com o casal, devido a "mentiras" da vizinha, que se ofereceu para "tirar o quebranto" (mau-olhado) à esposa, começando a partir de determinada altura a duvidar se "as rezas" seriam para fazer bem ou mal.

Na acusação, o MP diz que o arguido planeou matar as vítimas, sabendo que ao sábado de amanhã se deslocavam à feira da Mealhada num quadriciclo (veículo vulgarmente conhecido como "papa reformas") e decidiu esperar por elas numa reta, que fazia parte do seu trajeto habitual.

Ao avistar a viatura do casal, o arguido "imprimiu velocidade ao seu veículo e de forma súbita e imediata guinou o volante para a esquerda e direcionou-o contra o veículo das vitimas em contra mão, tendo o mesmo embatido de forma violenta", descreve o MP.

As três pessoas envolvidas no acidente foram assistidas no local e foram transportadas para o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, mas o vizinho não resistiu aos ferimentos e acabou por morrer.

O MP não tem dúvidas de que o arguido "visou por termo à vida das vítimas", realçando que o mesmo sabia que o embate de um automóvel com um quadriciclo "seria suscetível de o destruir e de lhes causar lesões mortais, tanto mais que se tratavam de pessoas idosas".

Ainda segundo a acusação, os factos alegadamente praticados pelo arguido, que se encontra em prisão preventiva, ocorreram em circunstâncias que "revelam especial perversidade e censurabilidade".