Duas das três vítimas dos alegados maus tratos praticados por oito ex-alunos do Colégio Militar, disseram hoje em tribunal que se sentiram «humilhadas» e «envergonhadas», classificando os castigos aplicados pelos arguidos como «agressões brutais».

Os oito ex-alunos tinham, à data dos factos, entre 17 e 22 anos, e estão acusados de maus tratos cometidos, alegadamente, no interior daquela instituição de ensino no ano letivo de 2006/07 e no início de 2008, contra outros três estudantes.

Uma das vítimas, que em 27 de fevereiro de 2007 tinha 10 anos, contou durante a tarde de hoje ao coletivo de juízes da 6.ª Vara Criminal de Lisboa que foi castigado nesse dia, após ter chamado um nome aos graduados, porque as camas tinham sido desmanchadas pelos próprios.

«Fomos mandados formar e um dos graduados agarrou-me pelos colarinhos e levou-me para a casa de banho. Aí deu-me pontapés e murros, comigo no chão, apesar de eu dizer para parar. Depois, um outro graduado puxou-me para o corredor da camarata e deu-me uma estalada de luva castanha. Tudo feito à frente de todos os colegas. Na altura senti-me humilhado e com medo, hoje sinto-me revoltado. Foi um ato humilhante e as agressões, brutais», frisou o ofendido, que continuou a estudar no Colégio Militar, sendo hoje graduado.

Em resultado da chapada, o menor ficou com o tímpano perfurado e esteve 688 dias de convalescença. Da parte da manhã, este arguido - o único dos oito a querer prestar declarações - assumiu os factos e pediu desculpas à vítima, dizendo que não era sua intenção «aleijá-la» no ouvido, e mostrou-se «arrependido» pelo ato e respetivas consequências.

Antes, o tribunal inquiriu o irmão da vítima, que também foi alvo de alegados maus tratos por parte de alguns dos arguidos, a 3 de janeiro de 2008.

Nesse dia, segundo o ofendido, um dos graduados, como castigo por ter tentado pontapear um outro aluno, depois de este lhe ter chamado um nome, mandou que os restantes alunos da companhia formassem um quadrado, à volta do menor.

«O graduado [arguido no processo] deu-me três chapadas com as luvas calçadas. Depois ordenou-me que fizesse flexões, pulos de galo e de canguru até à exaustão. Ele via que eu estava a fraquejar, mas obrigava-me a continuar. Eu, para não levar mais porrada, continuava a tentar fazer os exercícios. Foi uma humilhação», disse a vítima, que, na ocasião, tinha 11 anos e o graduado, 18.

O menor esteve 83 dias em convalescença devido a lesões, traumatismos e hematomas nas pernas, que o obrigaram a ser transportado por uma cadeira de rodas durante um mês, além de ter de fazer fisioterapia, impossibilitando-o de frequentar as aulas durante o segundo período.

As duas vítimas confirmaram que, naqueles anos, era normal e frequente os alunos mais velhos castigarem os alunos mais novos. Acrescentaram que havia um código de conduta entre todos para que os assuntos fossem resolvidos no seio das companhias, razão pela qual só mais tarde, após os alegados factos, é que fizeram queixa aos familiares.

Os arguidos tinham, à data dos factos, entre 17 e 22 anos, e frequentavam o último ano na condição de graduados ou de comandantes de companhia ou secção, enquanto as três vítimas tinham 10, 11 e 13 anos.

Para a manhã de sexta-feira ficou agendada a inquirição da terceira vítima e dos pais dos dois irmãos ouvidos hoje, além de outras testemunhas.