O Ministério Público pediu esta terça-feira no Tribunal de São João Novo, no Porto, a condenação dos três arguidos acusados da morte do segurança Nuno Gaiato, considerando que ficaram provados os crimes de que são acusados. Já os advogados de defesa pediram a absolvição e teceram duras críticas à PJ e à equipa especial liderada por Helena Fazenda.

O Procurador Francisco Miranda afirmou que está convicto de que «a acusação retrata de forma fidedigna tudo o que ocorreu naquela noite». «Pelos telefonemas feitos durante a tarde e pela forma como os arguidos chegaram ao local, parece-me que ficou provado que foram ao El Sonero para executar um plano».

O Ministério Público afirmou ainda acreditar que ficou provado que foi o Hugo quem disparou e não o Berto. «Pela reconstituição e pelos testemunhos dos inspectores em tribunal, concluímos que a versão relatada pelo Hugo não é exequível».

Francisco Miranda disse ainda que, apesar de Vasco Cardoso e José Santos (Timóteo) não terem estado na cozinha onde decorreu o tiroteio, também deverão ser condenados por homicídio porque foram ao local para arquitectar um plano e, tendo em conta a natureza conflituosa da Nuno Gaiato e o facto de este andar constantemente armado, sabiam que era provável que tivessem que disparar as armas que traziam.

O Procurador pediu então ao tribunal que condenasse os três arguidos por homicídio, com penas diferentes. «Se Berto não tivesse morrido, estaria também aqui a ser julgado e teria de ter a pena mais grave porque foi ele quem orquestrou o plano», disse Francisco Miranda. Nessa pirâmide penal, segundo o MP, deve seguir-se Hugo Rocha e depois Vasco e Timóteo, com as penas menos graves.

Quando ao crime de coacção, o MP considera que ficou provado, «mesmo que ninguém tenha visto as armas» que Vasco e Timóteo trariam. «O gesto que fizeram, ao pôr a mão atrás das costas, foi suficiente para intimidar os presentes e impedir que fossem auxiliar o Gaiato», afirmou.

Mas como ninguém viu as armas, o MP considera que não ficou provada a posse ilegal de arma desse dois arguidos naquela situação.

«Parece que no Porto somos todos uns trauliteiros»

Ainda antes de começar as alegações finais, Luís Vaz Teixeira, advogado de defesa, criticou a criação da equipa especial liderada pela equipa da procuradora Helena Fazenda. «Há 250 anos, pensava-se que no Porto se fazia pior justiça. Agora também se pensa assim», disse, adiantando depois: «Quando se fala na violência na noite do Porto, estamos a falar em 3 ou 4 homicídios no espaço de um ano. É muito, é verdade, mas não é mais do que em Lisboa». Por isso, o advogado não compreenda que tenha vindo uma procuradora de Lisboa liderar a investigação. «Parece que no Porto somos todos uns trauliteiros».

O advogado criticou ainda as falhas da investigação, nomeadamente o facto de haver um relatório preliminar em que se fala da existência de 4 projécteis no interior da despensa, mas «durante a reconstituição e durante o julgamento só se fala nos dois buracos no vidro». O defensor considera que estes projécteis podem indicar que Berto também disparou.

Para Vaz Teixeira, «o tribunal não pode dar como seguro que tenha sido o Hugo a disparar. Pode ter sido ele, mas também pode ter sido o Berto». O advogado vai mais longe e diz mesmo que, «se o Berto não tivesse morrido, a acusação diria que foi ele o autor dos disparos».

Sobre a alegada confissão de Hugo Rocha em conversa informal à PJ, o advogado estranha: «Então ele confessou e saiu em liberdade?»

No final Hugo Rocha afirmou: «Posso ser condenado mas não matei ninguém».