Dois doentes morreram enquanto esperavam por uma intervenção no Hospital Santa Cruz, alegadamente por falta de dispositivos médicos devida a «limitações administrativas», revela a Ordem dos Médicos, com base na denúncia de clínicos da unidade de saúde.

Na conferência de imprensa que a Ordem realizou para denunciar os casos relacionados com os constrangimentos financeiros, o presidente do conselho regional do Sul deste organismo, Jaime Teixeira Mendes, admitiu levar o caso aos tribunais.

Os dois doentes terão morrido enquanto se encontravam em lista de espera para receber dispositivos médicos para tratar por via percutânea uma estenose aórtica de alto risco.

Jaime Teixeira Mendes admitiu que a Ordem pode levar o caso aos tribunais, nomeadamente contra o conselho de administração da unidade hospitalar, que tem conhecimento da situação, e até o próprio ministro da Saúde, enquanto alegado responsável pelos constrangimentos financeiros que estão na base desta falta de material.

Além destas mortes, os médicos do Hospital de Santa Cruz que efetuaram a denúncia à Ordem garantem que a Unidade de Intervenção Cardiovascular «ficou sem capacidade de resposta desde o dia 4 de julho por falta de manutenção e material».

«Trata-se da unidade de hemodinâmica que realiza angioplastia coronária há mais tempo em Portugal e, desde essa altura, ambas as salas ficaram incapazes de funcionar em condições de segurança para os doentes por avaria no equipamento de angiologia», prossegue a denúncia.

Os clínicos afirmam que «há mais de dois anos que não há manutenções preventivas destes equipamentos nem controlo da radiação por eles emitidas».

«Num dos casos está inoperacional por aquecer excessivamente, pois desde há um mês que não há ar condicionado e a sala atinge temperaturas superiores a 30 graus centígrados, com prejuízo e risco dos doentes e profissionais, enquanto no outro caso trata-se de uma peça».

Jaime Teixeira Mendes adiantou que a Ordem vai questionar o conselho de administração do hospital, que pertence ao Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, sobre esta situação.

No encontro com os jornalistas, que contou com a presença de duas doentes que dizem ser «a prova» de legislação avulso e os constrangimentos que têm ocorrido no setor, conforme Jaime Teixeira Mendes referiu, foram igualmente denunciados casos de desvios de utentes do litoral alentejano de Setúbal, «para onde têm bons transportes», para Évora, «onde chegam a ter de pernoitar por falta de soluções de transporte».

«Além dos milhares de utentes que não têm médico de família - só no concelho de Sines estima-se que sejam à volta de 3.000 e no de Santiago de Cacém, um cifra que pode atingir os 10 mil - os médicos debatem-se com novidades absurdas na referenciação de doentes para especialidades que não existem no Hospital do Litoral Alentejano».

Segundo a Ordem, a situação traduziu-se em casos como o de uma doente que padece de um problema neurológico grave e que vai esperar um ano por uma consulta.

Outro caso refere-se a uma utente de Sines - hoje presente na conferência - cuja filha grávida e com uma complicação que precisava de seguimento foi referenciada para consulta de obstetrícia, em Setúbal, onde já tinha estado.

O hospital terá recusado a consulta, alegando que a utente não era daquela área. Foi então referenciada para Évora, onde a resposta foi igual. Quando a marcação da consulta chegou, já a criança tinha nascido, denunciam.

IGAS vai averiguar mortes

Soube-se, entretanto, que a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) vai abrir um procedimento de averiguações à morte de dois doentes.

Questionado pela Lusa, fonte do gabinete do ministro da Saúde disse que, «como sempre acontece em casos de denúncias públicas resultantes de eventuais más práticas nas unidades de Saúde, a IGAS abrirá procedimento de averiguações».