Um enfermeiro para 46 doentes durante a noite e mais de mil horas extraordinárias por pagar são algumas das consequências da falta de pessoal no Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, denunciadas esta terça-feira por dirigentes sindicais.

Frente à entrada do Centro hospitalar Psiquiátrica de Lisboa, dirigentes do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) e do Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Sul e Regiões Autónomas (FP) entregaram esta terça-feira panfletos com algumas das razões porque considerem ser “urgente mais profissionais”.

De acordo com Isabel Barbosa (SEP), neste hospital existe uma “carência extrema de profissionais de saúde”, a qual se agravou nos últimos tempos.

“Chega a estar um enfermeiro sozinho numa noite para 46 utentes”, denunciou, ressalvando que se trata de “um serviço de reabilitação de doentes dependentes e de doentes com necessidades na área da saúde mental e da psiquiatria”.

Para esta enfermeira, “já é complicado dar assistência aos cuidados inerentes à dependência dos utentes, para depois acrescentar outro tipo de cuidados que estes utentes necessitariam e que neste momento não é possível os enfermeiros prestarem”.

Outro sinal da falta de pessoal é o volume de horas extraordinárias por pagar: 10.124.

De acordo com Isabel Barbosa, esta situação só poderá resolver-se com a abertura de concursos para a fixação de trabalhadores, mas “isso não está a acontecer”.

A carência estende-se ainda a outros trabalhadores, como os assistentes operacionais, como explicou Ana Pais, do Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Sul e Regiões Autónomas (FP).

Esta dirigente sindical e trabalhadora do Centro hospitalar Psiquiátrica de Lisboa revelou que faltam todos os tipos de trabalhadores neste hospital.

“Chega a estar um único auxiliar para 28 ou mais utentes nas enfermarias, da parte da tarde e mesmo durante a noite”, denunciou.

Ana Pais denunciou uma “grande sobrecarga de trabalho, o que muitas vezes leva a acidentes de serviços e até baixas prolongadas pela sobrecarga que têm e que leva a problemas de saúde”.

“Um serviço de saúde não pode funcionar sem trabalhadores. Logo aí, à partida, a saúde dos utentes também fica em causa”, disse.

Os trabalhadores entregaram depois à presidente do conselho de administração do Centro hospitalar Psiquiátrica de Lisboa, Isabel Paixão, 67 cartas de trabalhadores a exigirem os pagamentos das horas extraordinárias.

Em declarações à agência Lusa, Isabel Paixão reconheceu dificuldades ao nível do pessoal, para as quais terá contribuído a alteração das cargas horárias semanais (de 40 para 35 horas).

“Informámos a tutela e pedimos a abertura de quotas concursais”, disse.

Segundo Isabel Paixão, foram solicitados concursos para a admissão de 15 enfermeiros e dez assistentes operacionais, sobre as quais ainda é aguardada resposta.

A administradora garantiu que não está posta em causa a segurança dos doentes e dos profissionais. "O recurso a horas extraordinárias existe precisamente para garantir que é aplicado o devido programa aos doentes", disse.