O presidente da Administração Regional de Saúde do Alentejo admite que a unidade de saúde tem algumas carências de pessoal, como alegam os médicos que se demitiram em bloco esta quinta-feira.
 

«Nós sabemos que o Litoral Alentejano é uma zona extremamente carenciada de profissionais médicos, que é uma situação que já se arrasta há muitos anos».

 
No entanto, em declarações à Antena 1, José Robalo destaca que já foram abertos vários concursos e que as vagas ficam sempre por preencher.
 

«Já se abriram vários concursos. Ficamos sempre com as vagas sem ser preenchidas, o que dificulta, de alguma forma, aquilo que nós gostaríamos que fosse a unidade local de saúde do Litoral Alentejano».

 
Os catorze médicos que «têm assumido» a chefia de equipa da Urgência do Hospital do Litoral Alentejano (HLA), em Santiago do Cacém, recusaram esta quinta-feira continuar à frente do serviço, invocando «degradação das condições de trabalho». 

Numa carta dirigida esta quinta-feira ao diretor clínico do hospital, a que a agência Lusa teve acesso, os médicos apontam «a degradação contínua das condições de trabalho no Serviço de Urgência, quer em termos de falta de material, quer em termos de falta de pessoal».
 
O presidente da ARS não acredita, no entanto, na denúncia de falta de materiais, preferindo acreditar na palavra do Conselho de Administração do hospital.
 

«Temos algumas carências. Em termos de carências materiais, o Conselho de Administração diz que não tem conhecimento de nenhuma falta de material para os serviços e, portanto, eu, em princípio, tenho que acreditar».


O responsável afirmou ainda que os clínicos «vão continuar em funções» e que a ARS e o conselho de administração da Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano (ULSLA), que integra o hospital, vão procurar dar resposta às preocupações invocadas pela equipa demissionária.

As comissões de utentes do litoral alentejano consideraram «inadmissível» a «degradação contínua das condições de trabalho» no hospital da região, que levou à demissão dos chefes de equipa do Serviço de Urgência.

«É inadmissível a degradação contínua das condições de trabalho no Hospital do Litoral Alentejano» (HLA), em Santiago do Cacém, «com falta de material, médicos e de enfermeiros», disse à agência Lusa Dinis Silva, um dos membros da coordenadora das comissões de utentes.

Dinis Silva reagia à demissão dos chefes de equipa do Serviço de Urgência do HLA, que disse ter resultado de «uma questão crónica», porque, lembrou, «em julho do ano passado, os diretores dos diversos serviços enviaram para as ordens dos médicos e dos enfermeiros um documento a informar das condições anómalas e irregulares que aconteciam em todo o HLA».

«É o resultado de um acumular de situações. O balão foi enchendo, enchendo, até que, de repente, rebentou. O cansaço que atingiu os chefes do Serviço de Urgência do HLA é devido a uma série de políticas de cortes cegos que têm atingido os serviços de saúde, como o encerramento de centros e extensões de saúde, o que provoca a grande afluência de utentes às urgências».


Segundo Dinis Silva, «é incompreensível que os médicos escalados para o Serviço de Urgência sejam contratados por empresas de trabalho temporário», o que «não lhes permite que estejam enquadrados no sistema de trabalho da urgência, no conhecimento dos colegas e de materiais informáticos e de outras questões».

Dinis Silva considerou «inaceitável» que utentes, após o processo de triagem e de lhes ser atribuída uma pulseira amarela, esperem «mais de nove horas» para serem atendidos no Serviço de Urgência do HLA. O responsável também considerou «inaceitável» que o Serviço de Urgência do HLA «nunca tenha funcionado com médicos pediatras, como deveria, mas com médicos de medicina geral».

Por este motivo, «a maior parte das situações terão de ser encaminhadas para o Hospital de São Bernardo, em Setúbal, onde as crianças são devidamente tratadas por médicos pediatras».

Entretanto, em comunicado enviado à Lusa, o conselho de administração da Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano (ULSLA) recusou a acusação de «degradação» do Serviço de Urgência do HLA feita pelos chefes de equipa demissionários.

Contudo, o conselho de administração reconhece que «existem problemas resultantes, entre outros, da falta de médicos na instituição», o que se reflete no Serviço de Urgência Médico-Cirúrgica, mas também nas restantes valências da ULSLA, incluindo os centros de saúde e os serviços de urgência básica.

O presidente da Comunidade Intermunicipal do Alentejo Litoral (CIMAL), Vítor Proença, considerou «gravíssima» a «demissão em bloco» de 14 médicos do Hospital do Litoral Alentejano (HLA).

«Isto é gravíssimo. O HLA é novo» e serve «uma população de 100 mil habitantes que mais do que duplica a partir de maio e nos meses de verão, com a procura que têm as praias do Alentejo Litoral», realçou à agência Lusa o presidente da CIMAL e da Câmara de Alcácer do Sal.

Segundo Vítor Proença, os autarcas dos cinco concelhos do litoral alentejano estão «muito preocupados» com a situação. «Estamos a falar de médicos com provas dadas, todos eles profissionais de saúde de primeira linha e com uma dedicação muito significativa à saúde e ao HLA», disse.

O presidente da CIMAL, atual autarca de Alcácer do Sal, mas que anteriormente liderou o município vizinho de Santiago do Cacém, apontou várias críticas relativamente ao funcionamento do HLA, para sustentar que os alegados problemas não são novos.

«É uma situação que o Ministério da Saúde e o presidente da Administração Regional de Saúde (ARS) do Alentejo já conhecem há vários anos, isto não é novo», frisou.

O autarca afirmou que o hospital debate-se com um «cada vez maior nível de dificuldades, com cortes sucessivos em termos financeiros, com insuficiência de dezenas e dezenas de médicos para darem uma resposta satisfatória aos cidadãos».

«No HLA, estes cortes na área da saúde afetam imenso o funcionamento dos serviços. E há riscos inclusive de fecho de alguns serviços», alegou, referindo-se ainda ao serviço de Urgência: «Nasceu muito limitado, houve promessas e passaram vários anos e não se resolveu o problema, ao nível das infraestruturas e do défice de médicos e enfermeiros».

A «demissão em bloco» dos clínicos cria «uma situação de funcionamento difícil», mas o Governo «tem de encontrar medidas que consigam cativar e recrutar mais médicos» e «disponibilizar todos os meios financeiros, meios de equipamentos e de outra natureza para responder às necessidades mínimas» do hospital, reclamou Vítor Proença.