A Ordem dos Médicos exigiu esta segunda-feira conhecer todas as questões que podem pôr «em risco» os cuidados de saúde no Centro Hospitalar de S. João, no Porto, onde no dia 19 todos os dirigentes intermédios se demitiram.

Em conferência de imprensa, o presidente da Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, elogiou a decisão dos profissionais do S. João como «um exemplo a seguir em defesa do Serviço Nacional de Saúde», mas pretende que lhe sejam «comunicadas todas as situações que possam pôr em risco a qualidade da prestação de cuidados de saúde à população».

«Esta é uma obrigação ética, deontológica, moral e cívica de todos os médicos», frisou o responsável, acrescentando já ter «recebido algumas denúncias sobre situações de deficiência, insuficiência ou irregularidade que podem colocar em risco a saúde dos doentes ou dos médicos».

«Nos últimos anos, o CHSJ tem sido reiteradamente considerado um hospital de referência. Se o CHSJ vem publicamente reconhecer a existência de problemas potencialmente graves que podem colocar em risco a qualidade dos cuidados de saúde prestados aos doentes, o que estará a acontecer nos outros hospitais portugueses não deverá ser muito diferente», sustenta Miguel Ribeiro.

«Provavelmente, poderá até ser pior», alerta o responsável.

De acordo com o presidente da SRN, o grupo de profissionais do CHSJ apontaram «um caminho para tentar resolver uma situação que começava a ser insuportável».

«E aparentemente vai ter sucesso», vincou, sustentando que «o exemplo deve ser seguido por todos aqueles hospitais que possam estar nas mesmas condições».

Na sequência de uma intervenção do ministro da Saúde na segunda-feira, os diretores clínicos e de departamento do Centro Hospitalar de S. João (CHSJ) aceitaram continuar em funções até 15 de julho, data em que esperam que sejam postas em prática as medidas apresentadas pelo Governo para resolver as deficiências.

Para Miguel Ribeiro, ao aceitar «as condições reclamadas pelo Conselho de Administração» daquela unidade hospitalar, o ministro «vem reconhecer que os cuidados de saúde» se estão a «degradar rapidamente e de forma irreversível, se a atual política de saúde de mantiver».

O Conselho Regional do Norte da OM alerta ainda que «o facto de o primeiro ministro reconhecer explicitamente na Assembleia da República que os profissionais de saúde» do CHSJ «têm razão» significa admitir «que a saúde em Portugal não está no bom caminho».

A administração do CHSJ anunciou no dia 19 que «os responsáveis pelas oito unidades intermédias de gestão do CHSJ e os 58 diretores de serviços clínicos e não clínicos decidiram apresentar o pedido de demissão».

Segundo a administração, as razões desta demissão conjunta relacionam-se, designadamente, com o facto de «a qualidade na prestação de cuidados de saúde à população estar em risco».

O ministro da Saúde, Miguel Macedo explicou na segunda-feira que a resolução dos problemas no CHSJ inclui aspetos relacionados com recursos humanos, maior flexibilidade nos investimentos e maior autonomia dos estabelecimentos hospitalares.

Paulo Macedo disse que «a autonomia será bastante mais fácil de conceder a quem tem as suas contas equilibradas do que a quem ainda tem défices grandes para reduzir».

Reconheceu ainda a necessidade de os serviços do Ministério da Saúde serem «mais céleres na satisfação dos recursos humanos que são solicitados».