A investigadora da Universidade de Lisboa responsável pelo relatório sobre qualidade e funcionamento do Hospital de Santa Maria afirmou esta quinta-feira que os dados recolhidos que apontam para corrupção naquela instituição foram “cuidadosamente analisados, com base numa metodologia científica”.

Sónia Pires, que avaliou a qualidade e funcionamento daquele Hospital, no âmbito do estudo “Valores, qualidade institucional e desenvolvimento em Portugal, encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, afirmou que “o estudo fundamenta-se em dados que foram recolhidos e, portanto, o material empírico foi feito com uma base científica”.

A investigadora reagia às declarações hoje feitas à Lusa pelo presidente do Hospital Santa Maria, que admitiu processar os autores do estudo encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, cuja análise apresenta esta unidade de saúde como estando minada pela corrupção.

“Os dados foram cuidadosamente analisados, foram feitos com base numa metodologia científica, pelo que estou particularmente surpreendida com esta reação”, disse a investigadora.


De acordo com as conclusões do estudo, hoje apresentado em Lisboa, o Hospital de Santa Maria, o maior do país, está minado por uma teia de interesses e lealdades a partidos políticos, à maçonaria e organizações católicas.

Segundo a análise de Sónia Pires, “apesar das melhorias registadas a partir de 2005”, a unidade hospitalar “continua atravessada por fortes conflitos de interesse e atos nas zonas cinzentas ou silenciadas que se configuram como corrupção”.

“A Maçonaria, a Opus Dei e a ligação a partidos políticos ainda são três realidades externas que intersetam a esfera do HSM”, refere o estudo.


Na quarta-feira, a organização Opus Dei desmentiu “categórica e integralmente” as afirmações que constam do estudo de que nos processos de nomeação dentro do Hospital de Santa Maria interferem "dinâmicas externas próprias à sociedade portuguesa — como (...) a Opus Dei".

A investigadora, que se baseou em questionários e entrevistas recolhidos entre 2012 e 2013, traça um retrato negro da instituição onde se entrecruzam os interesses públicos e privados de “grupos poderosos”, nomeadamente na classe médica e na direção de serviços de apoio que condicionam o funcionamento dos serviços a nível de recursos humanos e aquisição de material clínico.

“Aquilo que o ensaio escreve […] e os dados indicam que houve um processo durante largos anos de um fenómeno de corrupção em larga escala, mas isso, e eu quero frisar, que tudo o que está avançado foi feito com base em dados que foram recolhidos junto de agentes internos ao Hospital, bem como agentes externos do Hospital”, fundamentou Sónia Pires.