A presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) disse esta quinta-feira esperar que a demissão de diretores nos hospitais não se transforme numa nova forma de gestão hospitalar, porque «seria errada», embora compreenda os motivos das demissões.

«Compreendo que, às vezes, as pessoas que o fazem sintam que não têm alternativa, mas espero que não se transforme num comportamento viral», disse à Lusa Marta Temido, a propósito das demissões de diretores nos últimos tempos.

Em 2014 e já este ano foram vários os diretores de serviço que pediram a demissão.

«Espero que não seja uma forma nova de fazer gestão hospitalar, porque está errada», disse.

No entanto, Marta Temido compreende as razões das demissões: «Se estivesse numa situação de tal modo grave, em que entendesse que estava em causa a qualidade ou a segurança dos cuidados prestados aos doentes do meu hospital, eu tomaria a mesma posição».

A presidente da APAH não acredita que os hospitais estejam ingovernáveis, mas reconhece dificuldades acrescidas.

«Os hospitais são instituições altamente complexas e, em alturas como as que vivemos, de grande exigência do ponto de vista da redução da despesa e de grande exigência do ponto de vista da procura, são instituições extremamente difíceis de gerir, mas não ingovernáveis», declarou.

Sobre as razões destas tomadas de posição, Marta Temido recorda que «uma série de medidas, que não são de hoje, foram tomadas ao longo do tempo e que levaram a reduções de autonomia de gestão e reduções financeiras, está a refletir-se no dia a dia das instituições e leva a este desenlace».

«Os clínicos saem evocando enormes constrangimentos na forma como está a ser desenvolvida a atividade assistencial e evocando a degradação dessa atividade assistencial», adiantou.

Relativamente ao «braço de ferro» entre os demissionários e os decisores, Marta Temido deixa um aviso: «Não me parece que a estratégia do avança e recua seja minimamente saudável, mas parece que está instalada», disse.

Esta vaga de demissões começou no ano passado. Em janeiro, A direção das urgências do Hospital Amadora-Sintra apresentou a demissão, tendo contudo mantendo-se em funções após a promessa de esforços da administração.

Em junho, a demissão em bloco da direção clínica e de vários serviços do Hospital de São João, no Porto, levou a tutela a responder positivamente a algumas reivindicações.

Três meses depois, foi a vez da diretora clínica do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (CHLN), a pediatra Maria do Céu Machado, se demitir destas funções.

Em novembro de 2014, no Hospital Amadora-Sintra registou-se um novo pedido de demissões, desta vez de 16 chefes de serviço.

Já este ano, em janeiro, sete chefes da equipa do serviço de urgência do Hospital Garcia de Orta, em Almada, apresentaram os seus pedidos de demissão e, em fevereiro, foi a vez de 28 dos 33 diretores de serviço do Hospital Amadora-Sintra se demitirem.

Neste hospital, o diretor clínico também foi substituído, depois de ter apresentado o seu pedido de demissão e ter sido fortemente contestado na instituição.

Esta quinta-feira soube-se que o diretor clínico do CHLN, Miguel Oliveira e Silva, apresentou a sua demissão.