O Programa Nacional para a Infeção VIH/sida vai promover, no início de 2014, estudos para perceber as razões que estão a levar ao ressurgimento da transmissão da infeção nos homens que têm sexo com homens e nos imigrantes.

Dados oficiais referem que a transmissão da infeção através de relações sexuais em homens que têm sexo com homens (HSH) atinge, atualmente, mais de 20% do total de casos notificados nos últimos anos.

Em entrevista à agência Lusa, o diretor do Programa Nacional para a Infeção VIH/sida avançou que vão ser realizados estudos de «natureza comportamental», em parceria com instituições académicas e universitárias, para tentar «perceber o que está por detrás deste ressurgimento da transmissão da infeção nos homens que têm sexo com homens».

Os estudos vão avançar «rapidamente» para «ter respostas ainda no próximo ano» e se poder «traçar, alterar ou adaptar estratégias que têm a ver fundamentalmente com a prevenção», disse António Diniz, a propósito dos «30 anos do VIH/sida em Portugal» e do Dia Mundial de Luta contra a Sida, que se assinala no domingo.

«Precisamos saber porque é que estas pessoas se voltaram a infetar e isso implica sabermos que pessoas são, como é que elas encaram a infeção VIH e de que forma é que a adquiriram para podermos traçar essas estratégias, quer seja de prevenção, quer seja de diagnóstico», explicou.

Traçando o retrato da epidemia em Portugal, António Diniz afirmou que já «não tem as mesmas características». Há 10 anos, em mais de metade dos casos notificados a transmissão fazia-se através da utilização de drogas injetáveis partilhadas, atualmente 85% da transmissão é efetuada por via sexual, exemplificou.

O relatório sobre a situação do VIH/sida em Portugal em 2012, faz uma análise entre 2005 e 2011 que permite observar uma redução de 79% do número de casos relacionados com o consumo de drogas e um decréscimo de 21% nos associados à transmissão heterossexual, enquanto a transmissão homossexual aumentou 33%.

Em 2012 verificou-se que a transmissão associada ao consumo de droga corresponde a 10% dos casos, 24% a relações homossexuais e 63% a relações heterossexuais.

«No grupo dos homens que fazem sexo com homens essa percentagem tem vindo a aumentar e mesmo o valor absoluto de casos não tem conseguido diminuir», disse António Diniz.

Também tem crescido o peso das populações imigrantes no conjunto da infeção VIH em Portugal, nomeadamente nos distritos de Lisboa, Setúbal e Faro.

«Na região de Lisboa, mais de um terço dos casos notificados em 2009, que é o último ano em que conseguimos ter dados já com alguma robustez e consistência, ocorreram em pessoas de nacionalidade estrangeira», exemplificou.

Esta é «outra realidade» a que é necessário estar atento para se poder «saber qual é a melhor forma de atingir essas populações no sentido de terem aconselhamento, seguimento e tratamento mais adequado», mas também para impedir que a infeção se transmita nessas comunidades e na população nacional.

Estas duas populações são consideradas das mais vulneráveis à infeção, «não só pelos comportamentos que podem adotar, mas também, muitas vezes, pela dificuldade ou resistência ao acesso aos cuidados de saúde e à entrada no sistema de saúde».

António Diniz salientou ainda a diminuição na última década do número de novos casos de infeção, de sida e do número de mortes. A Direção-Geral de Saúde apresenta hoje o «Relatório Portugal Infeção VIH/sida em Números 2013».

António Diniz considerou ainda «um contrassenso» pedir-se aos doentes para aderiram ao tratamento e, simultaneamente, existirem hospitais que criam condições para «uma menor adesão», ao dispensarem a medicação só para uma semana, apesar de haver um despacho do Ministério da Saúde que determina a dispensa para, pelo menos, um mês.